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O ar que mata

JOSÉ RENATO NALINI | 14/07/2019 | 07:30

A opção brasileira pelo automóvel, em detrimento da ferrovia, foi um equívoco fatal. Trocou-se um transporte limpo, apto a conduzir centenas ou milhares de passageiros por longas distâncias, por um veículo egoísta e poluidor. O preço pela deliberada escolha está sendo bem alto. Quantos brasileiros morrem a cada ano, em virtude da poluição atmosférica?

Somos pobres em pesquisa, atividade que “não dá lucro” e que, portanto, é desimportante em estágios civilizatórios primitivos. Mas a Europa sabe detectar seus problemas. E constatou que quase 800 mil pessoas morrem a cada ano em decorrência dos efeitos da poluição do ar. Mortes que poderiam ser evitadas e abreviam em 2,2 anos o tempo de vida dos europeus. Um pesquisador do Instituto Max Planck, na Alemanha, JosLelieveld, concluiu o estudo ao combinar informações sobre a idade e a concentração populacional nas principais cidades europeias.

Verdade que a maior parte das cidades mais poluídas do planeta está no Oriente Médio e na Ásia. Mas a Europa também apresenta poluição atmosférica letal. Enquanto a média mundial de mortes por 100 mil pessoas é a de 120 por ano, na Europa em média morrem 133 humanos.

Como é que eles morrem?
Problemas cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral, o temível AVC. Problemas respiratórios decorrentes da ação insidiosa de gases e partículas muito finas de poluentes, que contaminam os pulmões. A receita, a longo prazo, é a busca de matrizes energéticas limpas. Buscar energia em fontes renováveis que mitigariam o impacto humano sobre as alterações climáticas e, segundo Lelieveld, reduziriam em até 55% as mortes em consequência da poluição atmosférica.

Essa poluição com a qual convivemos em todas as cidades brasileiras, pois o carro particular, os veículos a diesel, a gasolina de baixa qualidade, o egoísmo e o consumismo são patologias que introjetamos em nossa fórmula de sobreviver, mata 8,9 milhões de pessoas por ano. Isso em termos globais. É muito mais do que os outros 7,2 milhões de mortes anuais causadas pelo cigarro.

Mas quem é que está preocupado com isso? Vamos trocar de carro a cada ano, que é isso o que o “progresso” exige de nós.

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2019-2020.


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