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José Renato Nalini: O povo está cansado

JOSÉ RENATO NALINI | 26/08/2018 | 05:30

Finalmente parece que o brasileiro acordou para a anomia reinante e para os horrores perpetrados em seu nome por uma República já arremessada ao abismo. Não é possível conviver com corrupção, burocracia, inflação normativa e inflação de cargos e funções públicas, sem que se instaure a retomada do poder por seu legítimo titular. Afinal, a Constituição da República é explícita ao proclamar: “Todo poder emana do povo, que o exercerá diretamente, nos termos desta Constituição e por representantes eleitos”.

Os “representantes” não estão a satisfazer os representados. Aparentemente, não se comovem com a trágica situação nacional que, nos últimos vinte anos, perdeu quatro trilhões de reais em virtude do morticínio dos jovens. Sessenta mil potenciais produtores de riqueza para um país tão necessitado de produtividade são mortos de forma violenta. São 650 mil em 10 anos! Cada um deles causa um prejuízo efetivo de 550 mil reais. Multiplique-se cada morte nesses 10 anos e retroceda-se a 20 anos e ter-se-á uma conta nefanda e que causaria vergonha a qualquer país civilizado.

Nesse período, o Brasil multiplicou por 200 o seu gasto com segurança pública. Na mesma proporção cresceu o crime, porque a criminalidade é organizada e o Estado não. O Governo cuida de seu próprio interesse, da perpetuidade, das coalizões, dos conchavos, dos acertos, das próximas eleições. E deixa de atender ao básico. Estamos sepultando o nosso futuro. Já somos um país de velhos. Não temos esperança a oferecer às nossas crianças. Será que chegará o momento do “basta”?

Manuel Castells, o pensador influente destes tempos sombrios, diz que talvez o caos seja melhor do que o Estado. As redes sociais podem mudar o panorama. Elegeram Obama e Trump. Conclamaram a população em 2013. Serviram para coordenar a greve dos caminhoneiros e deixaram ainda mais perplexo um governo desconcatenado e contraditório.

Por que não fazer a soma dos desperdícios, do custo exagerado de uma estrutura ineficiente, da mais alta tributação do planeta, da falta de coragem para enfrentar o que deveria ser extirpado do governo e impor rumo e ritmo a quem quiser assumir a nau insensata? Um povo cansado e descrente é um sinal de alerta e, nesta era de desencanto, seja talvez a única esperança de dias melhores para este sofrido e maltratado Brasil.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

Foto: Divulgação

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