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José Renato Nalini: Obesidade x fome

JOSÉ RENATO NALINI | 24/06/2018 | 05:10

Metade da população passa fome, enquanto a outra metade engorda. Essa versão pode parecer fantasiosa, mas abriga algo de verdadeiro. A indústria de alimentação no Brasil está preocupada porque percebe uma tendência de que certa parcela de setores bem informados a considerem a vilã. Defende-se a dizer que são 35 mil empresas, que faturam seiscentos bilhões de reais, o que significa 10% do PIB, e gera 1,6 milhão de empregos diretos.

Agora, é certo que precisa ser construído um consenso entre indústria, governo, entidades de defesa do consumidor e famílias, de que algo deve ser feito para que o brasileiro se alimente melhor. Informar melhor à população o que ela consome é um bom início.

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A indústria faz sua parte, oferecendo o conceito de semáforo para indicar a concentração dos componentes nos seus produtos. Açúcar, gordura e sódio, estes sim, os grandes vilões. Cada produto deverá receber cores vermelho, amarelo e verde. Já existem dezesseis modelos de rotulagem no planeta e dez em elaboração.

“A ideia é aproveitar cada cantinho de rua para nele explorar uma horta comunitária

Mas isso é insuficiente. Talvez a personagem de maior relevância nessa cruzada seja a mãe. Ou aquela que ocupa seu lugar no núcleo familiar em constante e profunda mutação em nossos dias. É em casa que se aprende a comer.

Por que não insistir em oferecer verduras, legumes e frutas em lugar de seus substitutos industrializados e hábeis a viciar os pequenos consumidores, vítimas de parcela inescrupulosa dos que só pensam em lucro?

Há uma riqueza incomensurável na natureza, muito pouco aproveitada por nós. Uma excelente ideia é aproveitar cada cantinho abandonado de uma rua, de um bairro, para nele explorar uma horta comunitária. Com aqueles comestíveis pouco utilizados e que tendem a desaparecer, se a sociedade continuar a se homogeneizar e a se padronizar em comportamentos comodistas e nocivos.

Além disso, compensar o sedentarismo com exercício diário. Deixar de usar o elevador e usar mais a escada. Fazer a pé tudo o que for possível. Exercitar-se a cada duas horas. Fazer o corpo mostrar que estar vivo.

A indústria pode fazer campanhas institucionais e dar uma guinada em seus projetos futuros, para que essa equação cruel desapareça do cenário brasileiro. Precisamos de pessoas saudáveis, não famintos de um lado e obesos de outro.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

Foto: Divulgação

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