Opinião

José Renato Nalini: Pequenas ou grandes virtudes?


Virtude é algo que saiu de moda. Os atributos contemporâneos são a esperteza, a sagacidade, a perícia competitiva, a persuasão, o foco e a consecução dos objetivos existenciais. Tudo baseado na obtenção do status materialmente aferível como o único hábil a corresponder às expectativas de quem se dispõe a conseguir os bens da vida disponíveis. Se a própria concepção de virtude está em baixa, maior razão ainda para que a distinção entre pequenas e grandes virtudes não atraia a atenção da juventude. Sempre me sensibilizou o pensamento de Norberto Bobbio, que se dedicou a analisar as virtudes "fracas". Aquelas que não se destacam nem se fazem perceber em confronto com as "fortes". Singeleza, serenidade, humildade. As minúsculas "flores dos jardins das virtudes". Agora sou levado a ponderar que talvez seja o momento de insistir no cultivo das virtudes fortes. Chegou-se a tal despautério na vida nacional que só fazendo renascer a retidão esquecida, a responsabilidade esmaecida, o compromisso negligenciado com a ética, a retidão, a probidade, a devoção e o empenho em favor da recuperação dos valores. Auxilia-me neste exercício, o livro "As Pequenas Virtudes", de Natalia Ginzburg. Cotejando as pequenas e as grandes, ela propõe que se ensine aos filhos “não as pequenas virtudes, mas as grandes. Não a poupança, mas a generosidade e a indiferença ao dinheiro; não a prudência, mas a coragem e o desdém pelo perigo; não a astúcia, mas a franqueza e o amor à verdade; não a diplomacia, mas o amor ao próximo e a abnegação; não o desejo de sucesso, mas o desejo de ser e de saber". É uma verdadeira subversão naquilo que que parece vigorar. Em nome de um psicologismo que ordena liberar condutas para não traumatizar os filhos, estes são acostumados a seguirem suas inclinações, vontades e instintos. A tirania começa cedo em casa, onde se mandou para o lixo a disciplina, a ordem, a orientação. Até a higiene e as mínimas noções de civilidade. Quem terá coragem de enfrentar essa onda forte e contrária à pregação do bem e ousará mostrar a verdade às novas gerações? JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras - 2019-2020.

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