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José Renato Nalini: Revisitar a História

José Renato Nalini | 08/07/2018 | 05:30

Quem prestar atenção à História do Brasil verá que existem episódios ainda suscetíveis de revisão. Um deles é aquilo que aconteceu em Canudos, no início do século 20, quando Antonio Conselheiro conseguiu reunir milhares de seres humanos e, sem dominar estratégias bélicas, resistir às forças que a República articulou para eliminá-los.

Uma das obras muito citadas e pouco lidas se propôs a relatar essa epopeia. É o livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, que foi até o local na condição de repórter especial do jornal “O Estado de S.Paulo”. Constatou que “o sertanejo é antes de tudo um forte” e fez um relato que faz parte da mais importante antologia literária já produzida no Brasil.

Muito mais tarde, Mário Vargas Llosa, o peruano que tentou ser presidente de seu país e não foi bem sucedido, mas é Prêmio Nobel de Literatura, devotou-se a reescrever em tom ficcional a surpreendente aventura nordestina, publicando o premiado “A guerra do fim do mundo”.
Os dois livros devem ser lidos por todos, se ainda não os foram. Mas a verdade é que os fatos suscitam reinterpretações que adquirem múltiplos sentidos, quanto mais temporalmente distanciados do lapso em que ocorreram.

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Parece não restar dúvida, em nossos dias, de que houve uma desnecessária carnificina em relação aos fiéis seguidores do Conselheiro. Idosos, enfermos, mulheres e crianças foram exterminados sem piedade.
Também não deixa de causar espanto que pessoas humildes, em sua maioria paupérrimas, simples e até toscas, tenham conseguido suportar durante tanto tempo as bem armadas investidas governamentais.

Não há como deixar de comparar a força desses seres humanos com a dos fundamentalistas que ainda hoje oferecem ao mundo um espetáculo terrível: a autoimolação destemida, a resistência desproporcional ao “inimigo”, tudo alicerçado numa fé inquebrantável.
Isso mostra que a crença ainda é superior à força física. Quem não teme a morte é capaz de heroísmos inenarráveis.

Revisitar Canudos tem de ensejar na consciência da lucidez pátria a reflexão questionadora: o Brasil vive uma fase de descrença, de desalento e de desesperança. Haveria algum espaço para o surgimento de uma convicção, de uma fé inquebrantável, que levasse os brasileiros a se sacrificarem pela causa? Se isso ocorre hoje em outros países, por que não poderia eventualmente acontecer por aqui?

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencistaJOSE RENATO NALINI


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