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Salva-vidas em tempos de crise

JOSÉ RENATO NALINI | 14/05/2020 | 07:00

O que fazer com aquele tempo que faltava e que agora sobra? Para quem mergulha na leitura e nela sempre encontrou lenitivo e sedução, esse período é mágico. Posso partilhar com aqueles que têm paciência de me acompanhar neste espaço, as leituras que fiz neste período.

“Deveres e deleites”, de Tzvetan Todorov, entrevistado por Catherine Portevin. Não conhecia bem o filósofo búlgaro nascido em 1939 e que foi orientando de Roland Barthes. Instigante o seu pensamento. Fala, por exemplo, do modelo de excelência intelectual imposto pela França, que os jovens são incitados a imitar.

O aluno brilhante que cursa uma respeitada escola e absorve ideias que depois regurgita sob a forma de dissertação: bela retórica, mas que frequentemente substitui, e mal, a observação direta, a experiência autêntica, a reflexão original.

Li também “Citações e Pensamentos de Fernando Pessoa”, que comprei na Bertrand, em Lisboa. Por coincidência, José Sarney também estava lá, adquirindo livros. Ia para a canonização de Irmã Dulce. O livro da Casa das Letras, em 12ª edição, é uma compilação dos melhores textos do maior poeta de língua portuguesa do século XX, conforme o organizador Paulo Neves da Silva. Uma amostra. “Devem proteger-se e defender-se os artistas, os escritores que têm que viver da sua pena, e esses nunca são os homens de gênio. O homem de gênio é produzido por um conjunto complexo de circunstâncias, começando pelas hereditárias, passando pelas do ambiente, e acabando em episódios mínimos da sorte”.

“História do Brasil Contemporâneo”, de Carlos Fico, foi outro livro lido. Para o autor, “não deixa de ser surpreendente que o Brasil tenha superado tantas dificuldades… a democracia se consolidou e os problemas econômicos mais graves estão sob relativo controle”. Entende que “o fim do comunismo e da Guerra Fria tornou o discurso anticomunista supérfluo. As Forças Armadas, desde então, passaram a enfrentar problemas profissionais próprios, como a definição do seu papel no sistema democrático, a subordinação ao Ministério da Defesa (criado em 1999), comandado por um civil e, também, a superação da imagem negativa que ainda mantêm diante de alguns setores da sociedade por causa de seu envolvimento com a repressão política, a tortura e os desaparecimentos durante a ditadura”. O livro foi escrito em 2015.

Ler é a melhor receita. Verdadeiro bote salva-vidas em tempos de peste.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.


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