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José Renato Nalini: Tiro pela culatra

josé RENATO NALINI | 19/08/2018 | 05:10

No afã de conseguir votos, muitas promessas ecoam no desinteressante programa eleitoral. Propaganda paga pelo povo, embora denominada “gratuita”. Não há almoço grátis. A veiculação das mensagens pela TV e rádio é regiamente remunerada. Nem por isso este conteúdo tem apenas verdade e algo que atraia um desalentado eleitor. Uma das coisas mais equivocadas é a afirmação de que um dos juízes encarregados da Operação Lava Jato, em primeira instância, será o Ministro da Justiça do futuro presidente.

Qual o intuito dessa afirmação? Se é prestigiar o combate à corrupção, isso é tiro n’água. Quem garante que o substituto do magistrado atuará com o mesmo dinamismo e até com entusiasmo idêntico ao do substituído? Em seguida, mostra desconhecimento do papel do ministro da Justiça. Assim como se fala de Ministério da Marinha em nações que não têm acesso ao mar, o Ministério da Justiça no Brasil tem um papel de relevo incompatível com o significado e a simbologia do verbete “Justiça”.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Não depende do ministro da Justiça fazer o Ministério Público atuar e, menos ainda, direcionar o rumo e o ritmo do Poder Judiciário. Decepcionante verificar que os postulantes ao cargo de maior relevância da República, o de chefe do Poder Executivo, não tenham noção exata dos papéis reservados aos três poderes e acreditem que poderão empolgar o votante com tais acenos.

A população espera mais que se prometa, pela ordem: a) reduzir o número de partidos; b) acabar com o fundo partidário; c) reduzir o tamanho do Governo ou, se preferirem, enxugar o Estado; d) converter estados deficitários em territórios; e) converter municípios sem receita em distritos; f) simplificar a burocracia; g) garantir saneamento básico para todos; h) prestigiar a educação; i) inibir a violência; j) extirpar o crime organizado; k) implantar a ética na política.

Esse é um discurso que as pessoas de bem gostariam de ouvir dos candidatos. Mas haverá quem tenha coragem de pronunciar algo assim? Ou a busca do “politicamente correto” só produz mais do mesmo, no jogo de cena que dá sono e a ninguém consegue iludir? O Brasil do bem precisa de uma coisa só: verdade e vergonha na cara. Do resto e do que está aí, ele já está saturado.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista


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