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José Renato Nalini: Vazios éticos

JOSÉ RENATO NALINI | 30/08/2018 | 04:50

Há perdas irreparáveis que a continuidade dos micro-problemas rotineiros impedem que sejam adequadamente reverenciadas. Três mortes recentes privaram São Paulo e o Brasil de personalidades paradigmáticas. As novas gerações precisariam ser alertadas para a inscrição de ambas no Panteão da memória ética desta sofrida Pátria. A primeira delas é a da professora Agnes Cretella, viúva do administrativista José Cretella Júnior. Erudita e poliglota, uma estrutura cultural raríssima no panorama da mediocridade geral, traduziu inúmeras obras clássicas.

Simultaneamente, era a presença tranquila a garantir serenidade para o grande Cretella Júnior produzir sua obra imperecível no Direito Administrativo Brasileiro.  Além do mais, polida, gentil, simpática e amável. Reunia um ramalhete diversificado de virtudes, a servir de modelo para a caracterização de um exemplar humano de primeiríssima qualidade.

A segunda é a do professor Erasmo de Freitas Nuzzi, competente educador, que desenvolveu uma carreira sólida em São Paulo e foi ligado a Jundiaí durante a primeira gestão do prefeito Walmor Barbosa Martins, entre 1969 e 1972. Membro do Conselho Estadual de Educação, foi figura relevante para a criação do Colégio Técnico de Enfermagem e auxiliou também nas tratativas da instalação da Faculdade de Medicina de nossa terra.

A terceira é a do procurador de Justiça Hélio Pereira Bicudo, que se tornou figura mundialmente conhecida ao lutar contra o famigerado “Esquadrão da Morte”, grupo armado que fazia justiça pelas próprias mãos, sob argumento de livrar São Paulo de seus mais perigosos delinquentes. Escreveu o livro “Meu depoimento sobre o Esquadrão da Morte” e arrostou perigos numa época em que os riscos eram muito maiores, diante da indefinição do quadro da licitude e da ambiguidade de regime em que tanta coisa se praticava em nome da moralidade pública nem sempre por meios eticamente aceitáveis.

Foi um dos fundadores do PT, foi vice-prefeito de Marta Suplicy e não hesitou em deixar o partido quando do surgimento do “Mensalão”, depois sucedido pela “Lava Jato” e sua sequela de infortúnios, que privam os brasileiros de esperança na salvação da política partidária. Cada um deles deixou um patrimônio imensurável de excelentes práticas. E é disso que a infância e a juventude precisam, para reencontrar os rumos deste Brasil aparentemente à deriva.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

JOSE RENATO NALINI


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