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Jundiaí perde Josette, a eterna aluna de Villa-Lobos

ARIADNE GATTOLINI | 09/06/2020 | 06:00

Escrevo este texto tomada pela emoção de quem perde sua professora, mestra e amiga. Na sexta-feira passada, conversamos animadamente, dizendo que a queria encontrar em novas aulas de piano, através do Zoom, e que nesta semana mesmo eu iria até a sua casa para conversamos pela varanda envidraçada e falarmos da vida como duas maricotas jundiaienses, num elo entre o hoje e o amanhã.

Todos conhecem o legado de Josette Silveira Mello Feres, fundadora da Escola de Música Jundiaí, em 1971. Pedagoga e professora de música, Josette é a criadora do método de ensino de música para bebês no Brasil. A ex-aluna de Villa-Lobos criou um método inovador, que foi levado a diversos países. Ela mesma gostava de contar de sua viagem à Hungria, em plena Guerra Fria, quando mostrou como as crianças brasileiras cantavam escravos-de-Jó e como ela se atrevia a se comunicar por gestos e música.

Eu a conheci exatamente nas aulas para bebês. Meus fil<CW-11>hos tiveram o privilégio de estudar em sua escola. À medida que eles iam crescendo, eu me vi apaixonada por seu trabalho. Sempre brincava dizendo que ela tinha que me adotar. Propus que escrevêssemos um livro sobre sua história, seu legado musical. Francisco Carbonari, então secretário de Educação de Jundiaí, comprou a ideia e o livro foi publicado, uma de suas grandes alegrias.

Nos próximos sete anos, Josette tentou me ensinar piano. Aprendi a leitura musical, mas o piano se tornou somente um pretexto para nossos encontros semanais animados, nossas trocas de impressões, dos livros que líamos, dos conselhos pedagógicos para a criação dos filhos.

Josette foi professora de grandes expoentes musicais, como Fabio Zanon, Luiz Mantovani, Heloisa Meirelles, Michel de Paula e tantos outros, que participam das melhores orquestras do mundo. Todos eles lhe dedicam carinho especial. Na semana passada, pedi que eles mandassem uma mensagem para que aquecessem seu coração de mulher delicada, que estava confinada, sem ver suas flores, sem tocar seu piano ou ver seus amigos.

Com sua característica alegre, me ligou contando que recebeu mensagens de seus alunos queridos. Fizemos milhões de promessas futuras, do chá que gostaríamos de ter ido tomar no parque, no livro que eu estava lendo e na música nova que vinha de Cuba.

Josette e Samy, seu marido, têm em nossos corações um modelo de educação e de amor que marcaram profundamente nossas vidas. O maior legado de amor que Josette deixou são seus cinco filhos maravilhosos. Claudia, Luciana, Sônia, Roberto e Renato. Para mim, estes meninos dourados e voadores são o melhor exemplo de quem foi muito bem-sucedida como mãe, musicista, pedagoga e amiga. Aos 85 anos, minha Josetinha foi encontrar o Pai, sem as homenagens que merece, por conta desta pandemia horrorosa, que ela não entendia e não aceitava. Jundiaí lhe deve a continuidade do ensino de música erudita, para honrar nossa maior expoente.


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