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Laudo Natel

JOSÉ RENATO NALINI | 14/06/2020 | 05:43

Discretos eventos celebrariam, a 14.09 próximo, os 100 anos de Laudo Natel. Homem simples, avesso a comportamentos caricatos de tantos políticos. Gostava de Jundiaí onde esteve muitas vezes. Era frequentador da Pauliceia. Tomava café e conversava com todos.

Não gostava de avião. Preferia automóvel. Um de seus amigos aqui era Duílio Buzanelli. Faz parte de minha biografia em episódio pitoresco.

No meu concurso de ingresso ao Ministério Público, um dos candidatos chamava atenção. Carioca, filho de respeitado desembargador do TJRJ, seu vizinho era João Baptista Figueiredo, o então todo-poderoso chefe do Serviço nacional de

Informação (SNI). Tão amigo que veio assistir ao exame oral, junto ao pai do candidato. Ambos ingressamos no Parquet e assumimos nossos postos. Ele em Caraguatatuba, então a sede de circunscrição mais próxima ao Rio. Eu em Votuporanga.

Quando chegou a primeira promoção, consta que a lista tríplice para Ubatuba incluiria o carioca e duas “damas de companhia”. Assim eram chamados os sem chance, que apenas formalizariam a exigência dos três nomes. Era “carta marcada” a promoção do favorito. O segundo indicado era Antonio Eras e o terceiro era eu.

Ocorre que, por haver integrado a equipe de Walmor Barbosa Martins, eu me aproximara de Orlando Zancaner. Homem fantástico e leal aos amigos. Ciente de minha preterição, foi pragmático: “Seu concorrente vem com uma bomba atômica: o Chefe do SNI, futuro presidente da República! Mas nosso governador caipira prefere traque!”. Zancaner acionou todos os deputados, senadores, prefeitos e políticos de São Paulo, que intercederam por mim.

O sistema de promoção, à época, era a formação de “grades”: os três nomes indicados e a lista de peticionários de cada um. Foram centenas de pedidos e Laudo Natel me promoveu, deixando perplexo o meu colega. Hoje meu grande amigo: Hamilton Lima Barros. Deixou o MP e se tornou Juiz. Deixou a Magistratura e hoje é titular de delegação extrajudicial. Fui parar em Ubatuba e isso mudou minha vida. Graças a Laudo Natel, que se tornou amigo. Foi a várias noites de autógrafos de meus modestos livros. Permanecia na fila, paciente e discreto como sempre. Fará muita falta!

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.


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