Opinião

Lembrança da caserna


Ano de 1954, meados de fevereiro, calor úmido, moçada inquieta com o Carnaval chegando, estava em pleno pátio do quartel da 2ª Cia. de Comunicações do Exército uma centena de jovens daqui aguardando a incorporação para prestar o serviço militar. Na semana seguinte, se somaria uma segunda centena oriunda da Capital, que chegou com bem mais cabelo a cortar. Pesadelo puro, pois, aos que estudavam seria um ano perdido, mas para boa parte que era oriunda de sítios da área rural, seria a oportunidade de conhecer a então muito diferente vida urbana. As tentativas para evitar aquela obrigação, que naquele tempo alcançava muitos jovens, foram frustradas. Não restou nada a não ser ceder à imposição e começar a assumir as obrigações. Pegar os uniformes, prestar ordem unida e ser distribuído aos serviços típicos da guarnição. Tive sorte de estar entre os burocratas e ainda ser convocado para os esportes, cuja demanda é frequente. Soou a sirene do rancho e a fila cresceu na entrada do refeitório. A equipe da limpeza foi eficiente e mostrou sua competência, deixando para todos verem as enormes ratazanas mortas junto à porta de entrada. Logo deu para perceber qual seria o bom humor da tropa. Acabaram os dias de permanência e todos passaram a dormir em casa, exceto o pelotão em serviço. Ainda sem conhecer bem as regras, cometi uma falseta, fui jogar em São Paulo sem autorização. Apanhado através da rádio, o tenente Ivan aplicou três dias de detenção, mas o capitão Cartolano, que passava ao lado, sugeriu quatro e falou: “Pra ele ficar no quartel o domingo também”. Conhecia li o humor do comando. Em agosto o Presidente Getúlio Vargas se suicidou. O panorama nacional ficou turvo com ameaças de greve, perigo de paralisação dos trens, principal meio de transporte na época e forças armadas de prontidão. Aqui com a metralhadora em tripé no portão, para nós moçada boba, parecia o começo de uma revolução. Por ordem do Comando, o Sargento Valente montou um pelotão com o time de bola ao cesto, e fomos guarnecer a Estação da Paulista. No segundo dia, com mosquetão e baioneta calada, me coube proteger a Porteira da Barreira. No terceiro, e sem que nos substituíssem fomos a mais ameaçada, a Estação da Várzea. Nada aconteceu e as nossas faces ganharam alegria no lugar da apreensão inicial. Uma grata lembrança do local foio frango ensopado com polenta que uma senhora nos ofertou. A prontidão seguiu e numa madrugada a sirene convocou a tropa. O Comandante Marcolino passou em revista e ficou satisfeito com a presteza. Porém, fruto da correria, viu nos pés do Garcia um com coturno e outro com sapato bico fino de verniz. Questionado, não teve dúvida, “é para saber quando é direita volver ou esquerda volver”. A resposta imediata ordenou: “Já pra cadeia”. Liberada da formação, a tropa comentava a valentia do Garcia, que foi incluída no rol das boas piadas, normais nas instruções do dia a dia. O pesadelo que nos dominava na incorporação, dez meses depois se transformou no ano que mais ri em minha vida. ANTÔNIO FERNANDES PANIZZA é arquiteto e ex-secretário de Planejamento Urbano de Jundiaí

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