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Lydia e Vlado

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI | 21/08/2019 | 07:30

Há duas mostras que merecem ser vistas. Ambas gratuitas, estão no mesmo prédio, separadas por um lance de escadas, e permitem viagens quase simultâneas a outros tempos e a outro Brasil. A 45º e a 46º Ocupação Itaú Cultural no edifício da Avenida Paulista, em São Paulo, propõem dois registros bem distintos, mas insisto que elas dialogam entre si apesar da disparidade. A primeira exposição mostra a educadora e musicóloga Lydia Hortélio e a segunda, o jornalista e professor Vladimir Herzog. Lydia, ainda na ativa aos 86 anos de idade, continua pesquisando e ensinando a respeito da importância do brincar para a formação da criança. Vlado – seu nome verdadeiro, mas que muitos supõem apelido – teve sua vida interrompida pela barbárie da repressão em 1975, quando tinha 38 anos e dirigia o jornalismo da TV Cultura.

A baiana Lydia estudou música desde a infância, especializou-se na Suíça e, na volta ao Brasil, trabalhou como professora e pesquisadora, recolhendo cantigas e brincadeiras populares. De Serrinha, no interior da Bahia, a Salvador, Lydia perambulou atrás de manifestações fadadas ao esquecimento. Juntou o rigor de sua formação musical ao amor pelas tradições populares, como cantigas de roda, por exemplo.

A família do croata Vlado fugiu da perseguição nazista (seus avós maternos e paternos foram mortos em campos de extermínio). Vlado aportou por aqui em 1946, naturalizou-se brasileiro, estudou Filosofia na USP e trabalhou como jornalista desde a década de 1950.A Ocupação de Lydia traz além de depoimentos e canções gravadas, brinquedos montados para interação do público. A de Herzog privilegia sua produção jornalística e seu interesse pelo cinema – passou temporada em Londres estudando audiovisual e trabalhando para o serviço brasileiro da BBC. Há textos, reportagens, um documentário, “Marimbás”, produzido em curso bancado pelo então Instituto Nacional de Cinema Educativo, no Rio de Janeiro.
Herzog não se limita a símbolo da redemocratização ou do sonho extirpado pelo arbítrio e violência. Ao mostrar-se o que fez, seus projetos e interesses, revela-se a face de um humanista singelo, corajoso e tremendamente capaz. Lydia exibe a mudança pelo brincar, o universo lúdico fazendo brotar gente mais feliz. Dois mundos – o de Vlado e o de Lydia – complementares, ambos apontando para um Brasil solar, mas tantas vezes encoberto por sombras tristes.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio


FERNANDO PELLEGRINI BANDINI
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