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Máculas da política

JOSÉ RENATO NALINI | 15/12/2019 | 07:30

A política serve para coordenar o exercício do poder, com a finalidade de tornar o convívio algo saudável para todos. Sem ela, corre-se o risco de permitir o arbítrio, sufocar a liberdade, impedir que o ser humano explore suas potencialidades e alcance a plenitude de seus atributos.

Lamentavelmente, nem sempre a política é o mister dos mais probos, dos mais lúcidos, dos mais capazes. O Brasil sempre enfrentou altos e baixos na política partidária. Mais baixos que altos, infelizmente.

Na segunda “Carta de Erasmo”, que José de Alencar publicou sob anonimato, ele reconhece que a situação política do Império do Brasil, na década de sessenta do século XIX, não era edificante. Indaga ele: “A política, alma da nação, espírito que a vivifica e anima, que ruim vício a corrompeu, Senhor, que dela fogem como da peste cidadãos eminentes, seus antigos e mais ferventes apóstolos? Outrora, nos tempos de lutas ardentes, foi a política uma ocupação importante para o povo e uma dedicação profunda para os cidadãos que aspiravam à direção dos negócios públicos”.

E continua: “Onde, hoje em dia, se encontra o povo, aquele mesmo povo entusiasta que fez a independência, a abdicação e a maioridade?”. E pode se acrescentar: a guerra do Paraguai, a abolição do cativeiro, povo que esteve ausente da proclamação da República?

O que José de Alencar percebia, na política brasileira nas últimas décadas do Império que Pedro II comandou por meio século? “Ressente-se profundamente a administração dessa subversão da política.

Homens novos, sem prestígio, de chofre surgidos da obscuridade, tomados da vertigem da súbita ascensão, escalando as posições com o arrojo e orgulho dos favoritos da fortuna, não podem imprimir ao país uma direção prudente, forte com moderação”.

O povo precisa ser reconquistado. A Democracia padece de incredulidade em todo o planeta. A Democracia representativa está na UTI. Ninguém se sente representado adequadamente.

Formalmente, o povo é o único titular do poder. Todavia, o poder se concentra nas mãos de poucos, os controladores dos escassos recursos nacionais. Já passou a hora do bom exemplo: da extinção do Fundo Partidário, do exercício de política assim como já foi antigamente nas Câmaras Municipais: um múnus cívico, ao qual se devotavam profissionais que continuaram a exercer suas atividades. Ausente qualquer remuneração para o comparecimento semanal à Casa de Leis.

Sem esses gestos de desprendimento, de desapego e de amor à Pátria combalida, não haverá resgate do prestígio da atuação política. E se constatará que a História se repete. Poder-se-á, com tristeza, afirmar-se como o fez José de Alencar em outra de suas “Cartas de Erasmo”: “Na melhor das repúblicas (não nos arremedos de república sul-americanos) o povo tem que lutar, a cada momento, com as próprias paixões, que os tribunos, os ambiciosos, os aventureiros (quase sempre nulidades, que só se salientam pela audácia ao serviço dos instintos mais baixos) costumam explorar em proveito seu e detrimento da pátria”.

O Brasil e os brasileiros merecem destino melhor.

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2019-2020.


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