Opinião

Mandetta merece sair?


Neste período de isolamento, em razão da pandemia do coronavírus, tornou-se rotina acompanhar as entrevistas diárias do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Vestido sempre com o colete azul do SUS, o médico vem transmitindo à população uma mensagem de serenidade e tranquilidade nestes momentos difíceis. Ele defende o isolamento social, como a melhor forma de diminuir o contágio pelo covid-19. Em pesquisa do Instituto Datafolha, a avaliação do Ministério da Saúde traz um porcentual de 76% de ótimo/bom, para a atuação da pasta nesta crise. Todavia, apesar de estar muito bem avaliado pela população em geral, o ministro parece não gozar de muito prestígio com o seu chefe, o presidente Jair Bolsonaro. No domingo (5), sem citar nomes, o mandatário disse que "algumas pessoas do meu governo, algo subiu à cabeça deles. Estão se achando demais. Eram pessoas normais, mas, de repente, viraram estrelas, falam pelos cotovelos, com provocações. A hora D não chegou ainda não. Vai chegar a hora deles, porque a minha caneta funciona. Não tenho medo de usar a caneta, nem pavor. E ela vai ser usada para o bem do Brasil. Não é para o meu bem, nada pessoal." O ministro Mandetta, ao ser questionado sobre um pedido de demissão por parte dele, disse na última sexta-feira (03) que: "quanto a eu deixar o governo por minha vontade, eu tenho uma coisa na minha vida que eu aprendi com os meus mestres: 'médico não abandona paciente, meu filho'". O principal ponto de atrito entre ambos é a questão do isolamento social. O presidente defende o chamado "isolamento vertical", ou seja, que apenas o grupo de risco (indivíduos acima de 60 anos, portadores de diabetes, hipertensão e doenças cardíacas ou pulmonares) sejam isolados, mantendo o restante da população em suas atividades normais. Já o ministro Mandetta, seguindo as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) defende o isolamento horizontal, em que ocorre restrição de circulação do maior número de pessoas possível, mantendo-se apenas os serviços essenciais. No pronunciamento à Nação do dia 24de março, o presidente disse que as ações do governo foram feitas "quase contra tudo e contra todos." Não é de se estranhar, tendo em vista o perfil do mandatário que temos, a presunção de ter o monopólio da verdade e a solução para todos os problemas. Também é conhecido o seu pouco caso pela ciência e uma personalidade extremamente vaidosa, bem como a necessidade de ser a "estrela da companhia." O ministro Mandetta não merece sair e a sua demissão seria um desserviço ao país. FABIO JACYNTHO SORGE é Defensor Público do Estado de São Paulo, membro do Núcleo de 2ª Instância e Tribunais Superiores e Coordenador da Regional de Jundiaí-SP

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