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Manjedoura com algodão

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE | 08/08/2019 | 07:30

A Companhia Paulista de Estrada de Ferro aproximava Marília de Jundiaí. De lá para cá, no entanto, existiam inúmeras paradas. Fuligem, apito, adeuses, solavancos… O bilheteiro, por certo, a observava atônito. Foi assim que ela, há sete décadas, chegou aqui.

A família era de Jundiaí, a mãe, porém, casada se mudou para Marília. A cada sacudida dela, um sorriso para os dois. A tragédia veio antes das 37 semanas: o pai morreu de acidente e o parto antecipou no impacto da notícia. A nenê era plena de vida, mas a mãe não suportou. O hospital contatou a família, sugerindo que fosse para adoção. A tia respondeu que de imediato se colocaria em viagem para buscá-la. Já no hospital, solicitaram que lhe desse um nome para o registro: Maria Aparecida. Em meio às angústias, a tia se esqueceu de lhe acrescentar um sobrenome. O hospital ofereceu-lhes a bagagem: uma caixinha com algodão e um vidro de leite materno para resistir à viagem.

Cresceu assim: Maria Aparecida, da fé em Deus e devoção a Nossa Senhora. Trabalhadeira como ela só. Por ter passado rapidamente pela escola, não se questionou a falta de sobrenome e ela não se importava.
Incluiu-se no grupo da Pastoral da Mulher/ Magdala para ouvir a Palavra, rezar, cantar e conhecer melhor o Cristo. Tem sempre uma expressão de agradecimento a Deus pelos cuidados que teve e pela força e a fertilidade nas mãos. Jamais ouvi dela qualquer lamento pelas ausências desde as entranhas maternas. Ao ter por perto uma assistente social, no caso a Pérola Dolce, voluntária na entidade, manifestou seu desejo de sobrenome, pois, na atualidade, ao lhe pedirem o nome, olhavam-na com desconfiança ao afirmar que se chamava somente Maria Aparecida. Conseguiu.

No último dia 20 de julho, na visita pastoral de Dom Vicente Costa, nosso Bispo Diocesano, à entidade, acompanhado pelo pároco, Padre Márcio Felipe, pelo assessor espiritual da entidade, Padre José Brombal e pelo vigário, Padre Rafael, testemunhou a sua história a quem possui o ombro e o olhar do Bom Pastor. Disse-nos que chorou a noite inteira naquele dia. Gente de Deus a ouvira em silêncio e com emoção. Que lindo tudo isso!

Pensei na viagem de Marília a Jundiaí, numa “manjedoura” com algodão, que lhe ofereceu o Senhor. A sobrevivência dela: milagre de Belém.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista


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