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Margareth Arilha: A Campeã do Carnaval

MARGARETH ARILHA | 06/03/2019 | 07:30

Carnaval 2019, e a campeã do carnaval paulista, em minha opinião, e considerando a Semana da Mulher, foi Jady da Silva e tudo o que ela pode representar no debate sobre direitos das mulheres e transformações das últimas décadas. Jady traz para o conjunto da sociedade, a imagem clara de que algo de diferente está no ar. Em que pese o fato de que há quem diga que meninas vestem rosa e meninos vestem azul, Jady vestia negro e dourado, e iluminava sua escola de samba e todos a seu redor. Mostrou seu talento , sua resiliência a enfrentar um mundo de desigualdades cruéis, e foi em frente. Jady foi símbolo neste carnaval. E o mais incrível é que dessa vez, as câmeras indiscretas da telinha não estavam apenas em busca de corpos perfeitos, concorrendo a transmissão da imagem da mais espetacular nudez . Desta feita, muitas mulheres surgiam, desfilando também seu humor e seus talentos. Jady, provavelmente estigmatizada ao longo de sua vida por não corresponder a padrões de beleza tradicionais, ganhou espaço e foi reconhecida por uma maré gigante de visualizações na internet Na pista, pura vibração da Vai-Vai. No Rio de Janeiro, Marielle presente resgatou de maneira especial o valor da critica política que as escolas de samba trazem para o carnaval. E, para além das escolas de samba, é impossível não perceber a grandeza das mudanças em curso no carnaval brasileiro, e paulista em particular. Os blocos representando as distintas subculturas das cidades enchem as ruas, mostrando que a felicidade e o prazer são de todas/os. Por exemplo, em Jundiaí houve espaço para o “Chupa que é de Uva”, ao mesmo tempo que o “Ainda somos os mesmos, realizou os seus passos com seus foliões . Os nomes dos blocos não são acidentais, representam o tipo de interação com que cada seguidor/a se sente identificado/a. Mas a grandiosidade do estilo é que as cidades se abrem para que todo/as possam, de maneira diversa , expressar seu canto interno . As mulheres reverberaram seu estilo de ser e fazer felicidades. Baterias femininas . Do ponto de vista da Psicanálise, um espaço para o desejo de estar, de criar laços , de vir a tona , e agir no mundo . A liberdade de criação, de associação, da beleza que há na arte popular, definitivamente nos salva do mau-humor, da intolerância , da rigidez. A capacidade de desejar e transformar é , realmente, nosso maior talento e o que estabelece nossa vida no mundo, dando as condições de seguir adiante. Salve Jady salve Marielle, sigamos , mulheres, em busca de nosso desejo.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp

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