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Margareth Arilha: Amém

MARGARETH | 31/10/2018 | 07:30

Jair Bolsonaro está eleito. Amém. Logo após o anúncio de sua vitória, um surpreendente rito de oração despontou nas telas televisivas. Presidente, colegas e esposa a seu lado. Companheira. De seus lábios se via a enunciação natural da palavra Amém, durante a oração. Por várias vezes, Amém. E daí em diante passei a recordar e temer o uso dessa palavra. Que alcance a religião terá nesse governo? Que papel terá a primeira-dama em não dizer Amém a tudo o que for pensado e conduzido por esse Governo? Será um Estado Laico? Como a primeira-dama pretende dar forma a seu novo lugar?

Passei a me recordar, imediatamente das primeiras damas das últimas décadas. Primeiro plano, evidentemente Ruth Cardoso. Sua biografia pessoal, profissional e política era e sempre será de uma mulher cujos passos e fortalezas inspiraram estudantes, pesquisadores(as), rumos das ações político partidárias, que viam nela, não somente a mulher apaixonada por tudo o que fazia, mas uma mulher que efetivamente influenciou o seu tempo.

Não foram poucas as vezes em que conversávamos e agíamos juntas com coletivos de mulheres na defesa da saúde integral das mulheres. Sua proposta de realização do projeto Comunidade Solidária, sem dúvida, foi altamente inovador, e foi o primeiro a enunciar a importância de destinar olhares para os bolsões de pobreza do Brasil, para a necessidade de conhece-los, e de atuar, inclusive com trabalho voluntário.

Sua biografia hoje já esta escrita, publicada e portanto posso dizer de seu conflito entre deixar a vida paulistana e aterrissar em Brasília. Afinal, aquele projeto não havia sido sua escolha. Mas foi, e como equilibrista excepcional, continuou a seguir seus demais projetos na medida do possível. Depois de Ruth, dona Marisa, depois de Marisa, com Dilma, um certo vácuo. Divorciada, não pretendia assumir claramente nenhum tipo de conjugalidade, sua filha esteve presente em momentos essenciais. Depois, Marcela, “bela, recatada e do lar”, e eu diria, jovem. Cantada ao vento por estas qualidades. Apenas por essas qualidades.

E agora vamos, sim, lidar com a mãe de Laura, dona Michelle, brasiliense, religiosa, atualmente batista, e dedicada a causa dos surdos e mudos. A mãe de Laura foi firme em afirmar que Bolsonaro não é racista, e nem machista, e nem homofóbico. Se puder dedicar-se a monitorar eventuais posturas do atraso neste governo, terá ao final desta gestão um papel de alto valor e significado. Dona Ruth assim o fez. Em suas mãos, primeira-dama sra. Michelle, a fala aberta da defesa dos direitos humanos e da dignidade de todos, e do respeito aos portadores de necessidades especiais. Adoraremos ver isso acontecer.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp

MARGARETH ARILHA


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