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Margareth Arilha: Assunto de família

MARGARETH ARILHA | 23/01/2019 | 07:30

O filme japonês, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2018, e indicado ao Globo de Ouro como o melhor filme estrangeiro, representa o Japão na competição pelo título de mesma categoria. Assinado pelo diretor Hirozaku Kore-eda, é um drama que vem sendo considerado pela mídia internacional como socialmente consciente e de uma delicadeza quase inexplicável. Trata de situações terríveis, como estamos acostumados a ver e denunciar: o abandono e mau-trato de crianças, roubos, e até mesmo o crime de ocultação de cadáveres. A grande genialidade do filme é a de conseguir tratar dessas situações dramáticas, mas embaladas na construção comum e cotidiana da subjetividade dos personagens. Tudo se emaranha. Os personagens também se enfrentam com a fome, com a solidão, com a carência, com a velhice, com a sabedoria e carinho, com as necessidades físicas, com a sexualidade, com o desejo e com o medo, medo da morte, medo da vida, medo da autoridade, angustia de si mesmos.
No filme, a falta, a consciência da falta e o desejo de fazê-la desaparecer fazendo uso de ações que estão “fora da lei”, é o núcleo central do filme. A constituição e manutenção da família se dá pelos recursos adquiridos de pequenos crimes, e as relações afetivas vão se construindo aos poucos. A adoção não-oficial da pequena menina, que sofria maus tratos no contexto de sua família biológica, é paradigmática, para que se faça a discussão sobre o sentido estabelecido na construção de laços familiares. O acolhimento de suas necessidades físicas e emocionais, contrasta com as discussões ouvidas entre os pais biológicos, onde a violência está presente, e se chega a ouvir a frase “eu não queria aquela gravidez”. O retorno a sua família biológica a faz perder pais presentes e preocupados em alimentá-la, em preservar seu sono, em dar colo, além de ofertar também uma espécie de tia, um irmão e uma avó sábia. Ali havia um lugar para a garota. Ali havia lugar para a vida e para a morte. Tudo se encaixa embora fossem pessoas certamente desajustadas perante a lei. Na outra família a criança parecia indesejada, fruto de uma gravidez indesejada.
O desejo de poder decidir quando e com quem ter filhos e o direito humano de concretizá-lo, é garantia quase indissolúvel de relações afetivas que façam prosperar a felicidade e o bem estar de pessoas, casais, e famílias.
Assunto de famílias. Assunto para famílias.

[RODAPE_OPINI]MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp

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