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Margareth Arilha: Carnaval de Lama

MARGARETH ARILHA | 06/02/2019 | 07:30

A apenas um mês de nossa festa máxima, o Carnaval, o tema se impôs. Nada mais compatível com o um Carnaval do que o excesso. Excesso, algo que está além de todos os limites, que excedeu todos os limites. Essa é a nossa lama. Execrável, excessiva, transbordante. É tanta a nossa lama que parece não se conter, vai para além de todas as bordas do pensável. E para algo de bom esse excesso de lama há de servir. Pensei na verve humorística do carnavalesco carioca, e descobri que esse tema poderia vir a ser campeão em 2020. Não seria uma excelente alternativa ter uma escola de samba que homenageasse a lama? Afinal é o que de melhor temos produzido nos últimos anos. Lama, muita lama, de todos os tipos. É tanta e tão diversa a lama que temos produzido que, realmente, os estrangeiros já estão ficando muito confusos. Uma boa escola de samba, com vários e muitos carros alegóricos, poderia, quem sabe, fazer o turismo internacional crescer, fazer o estrangeiro se informar direitinho, compreender nossa dinâmica histórica, política e econômica.
Antes de tudo deixe-me avisar que o meu tom é irônico.
Os carros alegóricos poderiam ser diversos. Assim, numa revisão corriqueira e inicial, pensei de cara numa Comissão de Frente. Claro, como estaríamos no Rio de Janeiro, Sergio Cabral e Pezão poderiam fazer a abertura, ladeados, provavelmente por Lula, Temer e Cunha fazendo as honrarias da casa. Na sequencia, o carro alegórico da Vale, com duas e grandes alas pelo menos – a Ala Brumadinho e a Ala Mariana, fariam sucesso. Para diversificar, a Lama Fogo, para discorrer sobre a grande fogueira que fizemos com nossa História, o nosso grande Museu Nacional. Pelo menos poderíamos contar o que foi queimado, seria uma forma de registrar o que perdemos, visualmente e também em imagens. Claro, porque já recalcamos os fatos. Na sequencia, o carro alegórico com a Lama do caso Marielle Franco. A pensar, talvez um carro para as milícias cariocas, associadas a outros episódios ainda não totalmente aclarados, tais como a misteriosa faca que invadiu o abdômen do Presidente, a queda do avião do candidato Eduardo Campos, a queda do avião com o ministro do STF, o fogaréu em que se transformou o estado do Ceará, ou ainda o ocorrido em Natal. Pensando bem, talvez um carro-Lama para a situação dos presídios poderia ser interessante.
Leitores e leitoras, lama é que não falta. Nossa melhor matéria prima no momento. E pior, ela vem realmente de todos os lados. Haverá forma de reescrevermos nossa história?

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo),
da Unicamp

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