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Margareth Arilha: Censo 2020

MARGARETH ARILHA | 17/04/2019 | 07:30

Inúmeras tem sido as áreas em que o Brasil vem andando de ré, e em velocidade de alto risco. Um dos últimos exemplos tem sido a situação do Censo 2020.
No próximo ano, devemos ter circulando pelo país, um conjunto de recenseadores, buscando informações qualificadas, em nossas casas, de tal forma que o país possa construir ao longo dos anos seguintes, um conjunto de políticas públicas que atendam as necessidades identificadas, buscando reduzir lacunas de direitos para todos os grupos populacionais. Tal esforço, crucial momento na vida de qualquer país, está atualmente absorvendo os profissionais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que é a instituição responsável por colocar a pesquisa na rua. Dada a complexidade da tarefa, o instituto historicamente se apoia num conjunto de especialistas que, em Comissão, busca escutar e tomar decisões que atendam os objetivos centrais da tarefa, isto é, encontrar formas cada vez mais qualificadas, de obter informações imprescindíveis para uma boa e ética condução futura, técnica e política, do país. Neste ano, a Demografia tem sido surpreendida pela insistente tentativa de corte global do instrumento de pesquisa, um conjunto de questões estudadas com inteligência e sensatez. Revisar práticas é salutar, buscar caminhos inovadores sempre é saudável. Buscar reduzir custos num pais com dificuldades orçamentárias, também. Mas, ocorre que há situações já definidas como positivas que não deveriam ser deixadas de lado. O censo brasileiro tem elementos de pesquisa que são fundamentais, de acordo com a grande maioria dos demógrafos nacionais. Informações sobre educação, trabalho e renda, sobre a emigração internacional, sobre a situação e contexto de vida de populações indígenas, o acento raça/cor dos dados. Não se trata de redução de custos apenas como a princípio poderia parecer. Na verdade, há um esforço importante de redução de acesso a informação, o que virá a dificultar a identificação de cenários mais próximos da verdade vivida pela população, especialmente no tocante ao campo do trabalho e renda, educação, e de imigração internacional. Iniciativas deste tipo são históricas em países que entraram em processos políticos e de governo menos transparentes e mais autoritários, onde a informação não é vista como instrumento de produção de democracia e de direitos para a população. Para onde estamos caminhando?

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora doNepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp

MARGARETH ARILHA


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