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Margareth Arilha: Conselhos Tutelares

MARGARETH ARILHA | 15/05/2019 | 07:30

A tragédia Suzano ainda ressoa em nossos corações, principalmente quando atiçada por algum gesto inusitado, como o da visita da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, ao local em que o episódio ocorreu, para dar seguimento a campanha “Acolha a vida”, e agregá-la a difusão da Política Nacional de Prevenção da automutilação e suicídio, instituída através da Lei n. 13819/19. Para o Ministério trata-se de oportunidade significativa para falar de como os jovens estão sofrendo, amargurados por suas vidas sem sentido, para mostrar famílias aflitas por não encontrarem pistas de como ajudar a manejar desencontros que seus adolescentes estejam vivendo, e que poderia ser muito bem ser retratado por uma expressão que ouvi de um simpático garoto da cidade: “me sinto um peixe fora d’água”. Ora, atire a primeira pedra quem nunca tenha se sentido, na adolescência, como um peixe fora d’água. Ocorre é que ninguém sabe onde estão as águas que poderiam acolher. Ora, o grande risco disso tudo é que ao ativar os conselhos tutelares, na lei acima citada, para ocuparem esse lugar e serem os guardiães da moral, geralmente associados a posturas religiosas, o poder publico possa vir a enunciar posturas de repreensão ao modos de funcionamento dos distintos grupos familiares. Esses, ao fim e ao cabo, estão fazendo, como se dizia antigamente, “das tripas o coração”, para dar suporte às dificuldades de toda ordem que estão sofrendo, e que poderiam ser expressadas numa única palavra: desamparo. Sim, porque não são apenas as crianças e os adolescentes que se sentem desamparados e desamparadas.

As mulheres e os homens adultos estão com medo, com medo do presente e do futuro, com medo de não conseguirem sustentar minimamente a seus filhos e a si mesmos, de verem seus familiares sofrerem, de não terem a quem recorrer para suas demandas de saúde e de educação, de não conseguirem se sentir seguros em suas casas e nas ruas de suas comunidades, de serem vítimas de preconceitos e estigmas, de serem maltratados por nada. Em muito pouco tempo o sentimento de horror se estabeleceu na vida nacional.

Espera-se que a moral religiosa não venha a ser usada como linha auxiliar da política pública para tentar ordenar o casos que o capital e seus protetores vem forjando no mundo. Seria melhor se tudo isso fosse apenas uma grande miragem, que pudesse passar rapidamente, e que pudéssemos acreditar que nossos desejos e nossas palavras pudessem recriar a energia para transformar o lodo em um cenário nacional promissor.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp.

MARGARETH ARILHA


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