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Margareth Arilha: Corpo, memória e trauma

MARGARETH ARILHA | 22/08/2018 | 04:55

Nessa semana, encontraram-se coreanos e coreanas do sul e do norte, atendendo a decisões do líder norte-coreano Kim Jong-un e do presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, de facilitar mais uma reunião entre familiares que foram separados pela Guerra das Coreias, no periodo de 1950-1953. Este conflito criou uma separação entre milhões de pessoas: pais e filhos, maridos e mulheres, irmãos e outros familiares. O conflito, formalmente, ainda nao terminou, uma vez que não há um tratado de paz firmado entre os dois países e, por isso, não há ainda comunicações de circulações facilitadas entre os dois países.

Separadas fisicamente por questões políticas e sobretudo ideológicas, os corpos e memórias, ao se tocarem, vibraram de maneira contundente. As cerca de 20 fotos que circularam retrataram a força do reencontro. Corpos e almas se movimentaram, buscando descarregar emoções fortíssimas, possivelmente mescladas. Todas esas pessoas foram separadas e certamente tiveram uma experiência traumática naquele momento, de corte.

Em linhas gerais, um trauma pode ser compreendido como uma ruptura psíquica importante, quando a experiencia vivida é muito maior do que aquilo que o aparelho psíquico de cada um poderia processar. Possivelmente, o reencontro e uma nova separacao sejam vividos também como algo difícil de assimilar. Mas quantos somos nós, sobreviventes de experiências traumáticas? Traumas podem ser vividos frente ao risco, real ou imaginário, à vida ou à integridade física de alguém. Podem envolver violência física ou psicológica, decorrentes de acidentes ou desastres naturais, ou ainda de situações de violência doméstica, violência urbana, apenas para listar alguns exemplos.

Muitas vezes, o trauma se manifesta independentemente de ter sido vivido concretamente e pode, sim, ser consequência de uma simples visão de um fato concreto muito forte. O trauma deixa registros no corpo e na memória. A experiência clínica psicanalítica permite olhar com muita delicadeza para cada sujeito que busca reconstrução. As reações são individuais e devem ser observadas como respostas possíveis aos fatos vividos.

O nível de tolerância de cada um é extremamente variado. O corpo e a alma guardam suas memórias, que devem ser recolhidas delicadamente e reorganizadas de maneira a poderem ser superadas. Um olhar delicado, por exemplo, sobre as fotos das famílias coreanas, pode indicar a enorme variedade entre as exeriências de vida de corpo, alma e memórias. Assim somos, tão iguais e tão diversos e diversas.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp

MARGARETH ARILHA


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