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Margareth Arilha: Eleição generosa

MARGARETH ARILHA | 03/10/2018 | 07:00

Às vésperas de uma das eleições presidenciais mais angustiantes dos últimos tempos, resolvi brincar com as palavras. Eleição generosa. Sim, generosa porque está permitindo evidenciar alguns fatos de gênero, que até então não surgiam de maneira tão clara: o voto feminino pensado e realizado com muita autonomia e o voto masculino refém de uma perspectiva que alimenta a fantasia de controle onipotente da vida.

Pense comigo – até pouco tempo atrás as mulheres brasileiras eram impedidas de votar. Alguém pode imaginar isso? Até pouco tempo atrás as mulheres brasileiras trocavam seus votos por esterilizações de seus corpos. Queriam encerrar suas vidas reprodutivas e, na ausência de políticas públicas de saúde que contemplassem o acesso a métodos anticoncepcionais, diante de códigos normativos retrógados, as mulheres se viam diante de uma situação terrível para a qual havia duas saídas, de uma maneira geral (claro, estou me referindo às mulheres pobres, de bairro, das periferias): ou negociar o seu voto em campanha eleitoral ou engravidar novamente e tentar negociar com médicos a realização de uma cesariana, pagar por fora e acreditar que seria feita a laqueadura feminina. Que tempos cruéis!

O mundo continuou, as normativas mudaram, as mulheres também e nesta eleição seu voto não só não é mais de cabresto – aquele que seguia marido, filhos, familiares ou o político de plantão – e nem tem mais que ser negociado por métodos para interromper sua vida reprodutiva.

As mulheres passaram a ter voz e opinião. Surgiram como sujeitos políticos que expressam sua voz, que ecoam claramente contra aqueles que ousam interromper uma sequência de direitos adquiridos, como os direitos sexuais e reprodutivos
Jornais já estão usando, corretamente, expressões como “Divisão de gênero nunca foi tão acentuada” (O Estado de S.Paulo, 30/09/2018), trazendo uma perspectiva analítica para o cotidiano que ainda terá que ser melhor compreendido.

Estamos falando das possibilidades de análise no campo da Sociologia e Política, no campo da Psicologia Social e no campo da Psicanálise. Essa última como dispositivo capaz de escutar e prospectar os movimentos de sujeitos que se constroem na cultura de seu tempo. O fenômeno ainda deverá merecer muita atenção, na academia e na clínica, onde estão mulheres, de todas as idades, expressando seu desejo de não se render a mundos que retirem suas possibilidades de ser com autonomia.

O “não” parece ser a opressão, de Estado, de igrejas, ou de famílias, que queiram obstruir experiências de viver que estejam em desacordo com seus desejos. Em particular, são jovens mulheres que estão buscando inserção no mercado de trabalho e estão adiando a maternidade. Mulheres mais desejantes surgem das urnas. Isso não se pode negar, mas somente aplaudir. Mas será que Freud ainda explica?

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp

MARGARETH ARILHA


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