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Margareth Arilha: Escuta, voz e desejo

MARGARETH ARILHA | 29/04/2020 | 05:10

Se algum caminho é possível para a mudança, ele se chama, no momento, STF. O ministro do Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello, decide interromper a escalada de violências concretas e simbólicas provenientes do governo federal, desde o início deste mandato, rompendo com um certo imobilismo que vinha tomando conta da cena nacional.

O país vinha caminhando num certo marasmo e esgotamento de respostas, o que é compreensível, dada a extensão e gravidade do problema e a falta de articulação e meios de resposta que estivessem a altura da complexidade do quadro político atual.

A decisão de abordagem jurídica do problema de fato parece ser a mais racional, e responde ao desejo e expectativa de um grande contingente social: autorização de abertura de inquérito para Jair Bolsonaro e Sergio Moro. Pesquisa DataFolha, publicada em 28 de abril, revela uma queda na aceitação do governo de Jair Bolsonaro, a partir de sua medíocre atuação no último mês, durante a instalação e expansão da gravíssima epidemia do covid-19.

Seu comportamento, desviante do tom mundial, manteve-se na tentativa de permanecer em linha com os EUA, que hoje amarga ao lado do Brasil cifras de mortalidade por covid-19 gigantescas. Não bastasse suas atitudes pessoais, na qualidade de chefe de Governo, decide calar a voz daquele que vinha sendo referente para as angústias que a sociedade já enfrentava diante da pandemia. O ministro Mandetta, presença pública em constante diálogo com os cidadãos, apontava que para salvar vidas era necessário foco, disciplina, trabalho e ciência. O desejo de ter no poder alguém com voz e em interlocução, com empatia, sensibilidade e compaixão pela vida humana foi o suficiente para a intolerância presidencial.

Lamentavelmente, o contraste entre Mandetta e Teich é gritante, mas o que grita mesmo é a ausência de voz de Nelson. Isso grita. Onde está o ministro da Saúde? Sem voz, sem olhar, sem escuta, um semblante que afasta e que não inclui, não permite a criação de vínculo, nem no momento da dor, grave como esse.

Um presidente que aí vem a público para falar que o zero qualquer coisa, seu filho, está em apuros porque quase sem querer – coisas da idade – namorou metade do condomínio, não merece mais seguir. Do meu lugar, me uno àqueles que aplaudem a revisão das condutas presidenciais assim como de seus ministros, para que tenhamos um senso ético como parâmetro que nos organize e reúna simbolicamente e para que possamos resgatar desde nosso desamparo subjetivo a força necessária para seguir adiante, elaborando as perdas sofridas e reconstruindo desejos.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo) da Unicamp.


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