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Margareth Arilha: Eu vou, por que não?

MARGARETH ARILHA | 18/04/2018 | 03:00

“Caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento , no sol de quase dezembro, eu vou. Em caras de presidentes, em grandes beijos de amor, em dentes, pernas, bandeiras, bomba e Brigitte Bardot”.

Cantarolar e relembrar do título da canção de Caetano Veloso, “Alegria, Alegria”, nos lança ao tempo e espaço em que o tom era a liberdade, a busca da alegria de quem começa, de quem tem a potência dos impossíveis (expressão lacaniana) em suas mãos.

“O sol nas bancas de revista me enche de alegria e preguiça. Quem lê tanta notícia, eu vou, por entre fotos e nomes, os olhos cheios de cores, o peito cheio de amores vãos, eu vou, por que não? Por que não”? A recuperação da força do passo era trazida pela canção: “Eu vou, por que não? Por que não?”.

A canção era inspiradora. Dar o passo. Buscar o novo. Experimentar. E por que não?

O clima da década de 70, traduzida em cada música da Tropicália, mesmo sendo “daqueles tempos”, renova a alma. Ou pode produzir novas almas. Essa a minha esperança . Foi assim que vivi momentos de especial “Alegria, muita Alegria”, visitando a experiência Cinema Tropicália, Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo. Se quiser suspirar, renovar ou aprender, não deixe de visitar. Uma instalação onde são exibidos dois documentários com imagens preciosas dos grandes artistas que fizeram parte do movimento tropicalista nas décadas de 1960 e 1970. Uma volta ao tempo com relatos de Caetano Veloso, Gal Costa, Tom Zé, Gilberto Gil e Rita Lee, entre outros.

Imagens e sons, em todas as paredes e nos pisos, são extremamente criativas. Com sábia inclusão da música “Panis et Circenses”, que faz o contraponto com as demais imagens, escuta-se e articula-se a direção do movimento: a crítica aos padrões estabelecidos pelas sociedade tal qual se vivia naquele momento, em que “as pessoas na sala de jantar estão interessadas em nascer e morrer”.

Hoje, no momento de incrível desamparo em que vivemos no país, açoitados que somos por dúvidas e dívidas com o futuro, por crueldades e inseguranças, por insensibilidades e pânicos, tudo em excesso, obras de arte primorosas como essas funcionam como aberturas para respirar.

Vá acompanhada (o) de um (a) grande amigo (a) como eu fiz. Eu fui com Fatima Gadioli, amiga de décadas revolucionárias.

Tudo isso nos fornece inspiração. Refúgios. alegrias. sem lenço, sem documento, nada no bolso ou nas mãos. Eu quero seguir vivendo, amor, eu vou. Por que não? Por que não?

 

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp


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