Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Margareth Arilha: Lugar de fogo

MARGARETH ARILHA | 20/03/2019 | 07:30

No dia 8 de março passado, Isabela Miranda de Oliveira foi enterrada em sua cidade, após ter morrido queimada, por fogo ateado pelo namorado. Tudo aconteceu após crise de ciúmes, após seu ódio incontrolável quando a viu numa cama, onde descansava. No curto período de tempo, muitas coisas poderiam ter acontecido, segundo revela a mídia, inclusive um abuso sexual cometido por alguém que estaria na casa. Não importa. Nada justificaria o abuso do fogo. O sentido da violência impacta. Para o namorado, Isabela estava num lugar que não deveria estar. O fato trouxe a minha memória, a morte do índio Galdino Jesus dos Santos ocorrido no ano de 1997, portanto há cerca de 22 anos. Esse crime, representou a morte cruel de alguém que justamente se encontrava em Brasília para demandar direitos junto ao poder público, sobre a área de sua região, Caramuru/Paraguassu, localizada no sul da Bahia. O cidadão indígena foi queimado vivo por jovens de classe média porque ao tentar voltar para o local onde estava hospedado, se perdeu, e terminou dormindo num ponto de ônibus. Para os jovens, Galdino estava num lugar em que não deveria estar.
Galdino e Isabela, estavam no lugar errado, faziam coisas erradas, do jeito errado? Lugar errado? E os jovens de Suzano? Qual é o lugar em que deveriam estar? Que limites haviam transgredido? Cada um pode julgar o lugar em que o outro pode ou deve estar? Quem determina tais limites? Como se negociam diferenças morais em relação a tais questões? Mas sobretudo, o que faço, o que eticamente posso fazer quando identifico que o outro ocupa um espaço que o meu julgamento moral não aceita como possível? O que é legítimo fazer? Muitas poderiam ser as respostas. No entanto, a violência, e a morte não podem ser aceitas como forma de pacificação. A eliminação do outro não pode ser solução. Isso me faz recordar uma cena de infância, em que ao chegar a uma casa de veraneio, fechada há muito tempo, ao sentar em uma poltrona escutei alguns ruído estridentes, finos, insistentes. Alguém anuncia: cuidado, podem ser ratos, filhotes de ratos.” E eram. E foram levados por alguém, um a um e submersos em álcool, e submetidos ao brilho imediato da chama do fogo. Constituiu-se o olhar e o sorriso sádico e cruel de vitória, sobre a vida daqueles que estavam em lugar errado”. Alguém os matou, ateando fogo.
Quem pode julgar o lugar de cada um e matar, simplesmente? Abaixo a destruição da diferença, da margem. Abaixo a morte dos jovens de Suzano. É preciso que se continue dizendo NÃO a todo tipo de violência. É preciso que se transforme quem acredita que pode ocupar o lugar de dono do fogo da destruição.

T_MARGARETH-ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp


Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/margareth-arilha-lugar-de-fogo/
Desenvolvido por CIJUN