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Margareth Arilha: Nana e Lulu

MARGARETH ARILHA | 28/11/2018 | 07:30

A China sedia, nesta semana, um evento de grande porte internacional, destinado a discutir as possibilidades técnicas e éticas da edição do genoma humano. O nascimento naquele país das gêmeas Nana e Lulu, duas meninas que foram criadas a partir do que se está convencionando chamar tecnologia das “tesouras moleculares CRISPE/Cas9”, marca um momento de extrema importância para o campo da reprodução humana.
A nova tecnologia permite a mudança livre e praticamente irrestrita de genes do corpo humano, revolucionando de uma maneira brutal, as possibilidades de escolha e definição da carga genética de cada individuo. A humanidade vive a “real” fantasia de onipotência através de uma tesoura molecular.
E assim o mundo segue. Se formos pensar que no século passado, em termos de tecnologia reprodutiva, o anticonceptivo oral revolucionou a possibilidade das mulheres separarem a sexualidade das decisões reprodutivas, hoje é a construção do ser integral que adquire contornos de decisão.
Não mais apenas o sexo, não mais a genética geral, mas agora a genética definida passo a passo, editada. Ou seja “deste cardápio, põe um olho azul aí, uma pele branca ali, um cabelinho claro acolá”. Editada como num “Ctrl+C/Ctrl+V” de partes do DNA humano, as sessões podem ser trocadas conforme a necessidade (associado a questões de saúde), mas também associadas a desejos.
Estamos ainda em situações experimentais. Até que toda essa tecnologia venha a ser incorporada no cotidiano da vida humana e dos países, muito tempo e águas rolarão. Mas é bom lembrar que a velocidade das mudanças tem sido também brutalmente alterada pela própria tecnologia.
Claro é que isso não ocorre de um momento para outro. Tal tecnologia já vem sendo desenvolvida há muito tempo e alguns países têm sido mais acolhedores do que outros quanto a seu uso. Mas o potencial está dado, e anunciado.
Inúmeras questões se colocam: será que o simples procedimento coleta de óvulo e espermatozoide de pais, fertilização in vitro e alocação do embrião, devidamente editado, inserido em cavidade uterina, criará seres, teoricamente mais perfeitos, mais saudáveis, mas também mais felizes? Será que ainda não nos conformamos em saber que não há gene especificamente definido para representar os desejos de homens e mulheres? Que sujeitos, seja como forem construídos, para serem humanos necessitarão se inserir no mundo através da linguagem e da cultura?
De nenhum jeito escaparemos da labuta de nos construirmos em nossa própria história sobre nós mesmos, seja como for.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp

MARGARETH ARILHA


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