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Margareth Arilha: Os desalentados

MARGARETH ARILHA | 20/02/2019 | 07:30

As mídias brasileiras divulgaram que o perfil atual da maioria dos desalentados deve ser conjugado no feminino. Hoje, no Brasil, de acordo com pesquisa realizada com dados da PNAD contínua, a maior parte do desalento se situa entre as mulheres, nordestinas, jovens de até 29 anos, de baixa escolaridade. Tais jovens, que formam o conjunto dos 55% por cento de um total de mais de 4 milhões de pessoas, desistiram de procurar entrar no mercado de trabalho. Desalentados tornou-se há cerca de um ano, uma categoria de classificação da relação dos cidadãos com o mercado de trabalho. As entrevistas com pessoas de carne e osso que estão na matéria realizada pelo portal do G1 (18/02), mostra que cansaram-se de tanto procurar, de investir seu pouco tempo e recurso entre circular por sites, pelas cidades, tentando obter, quase que por misericórdia, algum trabalho.
Sergio Fipro, professor do Insper, cita no G1, que “O desalento é um capital humano que não está sendo utilizado. É uma experiência e escolaridade que podem ser empregadas no mercado, mas ficam de foram, sendo passíveis de depreciação”. Eu entendo as limitações da linguagem de cada disciplina científica. Mas considero que o desalento está em cada esquina, nas pessoas, que são mais do que “um capital”. Jovens mulheres e homens, estão se cansando, estão se entristecendo com as dificuldades, estão se cansando da falta de alternativas, estão se cansando do desamparo das relações humanas, das relações institucionais e das políticas publicas, as pessoas, especialmente as jovens, não tem como solucionar tantos impasses ao mesmo tempo. A falta de recursos de toda ordem seja para inserção produtiva quanto reprodutiva, a falta de apoio para os cuidados de creche e anos iniciais de escolaridade, a violência nas relações aparentemente afetivas, a ausência de recursos para moradias seguras e saudáveis, se contrastadas com o gozo ilimitado das elites nacionais, espanta. O massacre das consequências do capitalismo selvagem, que expulsa os não eleitos”, é brutal. Todos somos vítimas. O Banco Mundial e as Nações Unidas e as escolas superiores de ponta, como o Insper, deveriam falar mais sobre isso, sob pena de irmos desaparecendo pelas portas do fim que o desalento psíquico, a depressão e as ondas suicidas podem deixar no país. Compete a nós desenhar estratégias de sobrevivência e destemor para os jovens, dar possibilidades de escuta para seus próprios desejos, possibilidades e esperanças.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp

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