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Margareth Arilha: Os impactos do isolamento social

MARGARETH ARILHA | 01/04/2020 | 05:15

Inimaginável. Um corte ocorreu e somos convocados a respeitá-lo. Sem as instituições, escolas, empresas, os mais diversos trabalhos e o lazer. Estamos isolados, confinados, e diante de nós mesmos. Se o isolamento físico e social é algo de difícil tolerância, certamente não é mais fácil aquilo que requer olhar para nós mesmos e para nosso entorno.

Estamos sendo obrigados a perguntar: e agora? O que é mesmo que tem valor em nossas vidas? Quem sou mesmo? Nossos computadores psíquicos estão desconfigurados. Um vírus acometeu nosso sistema e perdemos o que tínhamos guardado. No entanto, uma enorme oportunidade se coloca diante de nós: será justamente na reconstrução a partir do corte que poderemos buscar novas alternativas de vida.

No entanto, nada é tão simples. Admitir as fragilidades, o desamparo a impotência e a perda de rumos gerará afetos difíceis. Ansiedades, angústias, tristezas, frustração, ódio e desespero estão começando a surgir. Diante de ameaças de perda de saúde, de recursos de toda ordem, do risco de vida, de liberdades anteriormente sentidas, a resposta desesperada pode vir no formato de violência dirigida aos outros ou até a si mesmo.

O intolerável se transforma na agressão ao outro, como começam a indicar os noticiários. Há violência doméstica diante das desigualdades de gênero, diante do convívio com a escassez de condições materiais efetivas e na ausência de condições afetivas de solidariedade e amparo. Casos de violência auto-provocada também podem crescer, como auto-mutilações, tentativas de suicídio e suicídios. Serviços de saúde mental on-line vêm crescendo, com atendimentos direcionados a síndromes psíquicas que podem surgir ou crescer.

Ao lado desse cenário há notáveis impactos positivos. Particularmente destaco a intensa e ágil solidariedade intergeracional. Os jovens têm sido excepcionalmente cuidadosos com os mais velhos, disponibilizando o melhor de seus afetos, carinhos, gentilezas e atenção. Trocando informações, apoiando com gestos, palavras de alerta, encorajadoras e cuidadoras. Os jovens têm sido geradores de saúde mental e cuidadores sociais.

Allain Touraine, sociólogo francês, alerta para a grande virada do mundo: teremos a chance de inverter a lógica humana, e resgatá-la da frieza do lucro a todo custo, para dar lugar a uma lógica de encantamento e solidariedade em grande escala.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo) da Unicamp.


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