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Margareth Arilha: Santa Terezinha

MARGARETH ARILHA | 03/04/2019 | 07:30

A minha alma doeu quando recentemente anunciou-se o fechamento da Papelaria Santa Terezinha. Estabelecimento muito tradicional da cidade, acolheu, acendeu, e iluminou desde minha tenra infância, o meu gosto e prazer pelo estudo. Um das cenas mais gritantes de minha memória, mais agradáveis, daquelas que gostamos de relembrar, é a de uma visita muito especial aquele lugar.
Foi num sábado, quando fui por inspiração de meu pai, e com ele, só nós dois, fazer um programa muito especial. Iríamos até a cidade, para comprar um dicionário. Em casa, depois de lhe haver perguntado o que queria dizer algo, ele me disse, com firmeza: você precisa de um Dicionário. Eu tinha apenas dez anos de idade, registrados na capa do imenso e gordo livro que mantenho comigo até hoje, 1967.
O que era um dicionário? Do alto de sua sabedoria, meu pai me explicava, que era o livro mais sábio, que sabia explicar com muitas palavras o significado de uma palavra. E lá fomos nós. Chegamos, e vi, fascinada, diante de meus olhos, o meu primeiro Aurélio. Segurei em minhas mãos, senti seu peso, folheie timidamente, e logo pressenti sua importância. Não contente com o gesto, meu pai foi logo dizendo, me de mais um. Ele havia comprado dois dicionários. Um para Jundiaí e outro para São Paulo. As duas casas tinham que ser abastecidas com a sabedoria daqueles que nos acompanhariam por toda a vida.
Chegamos em casa, e contando a aventura, logo confirmei que todos gostavam do Aurélio, e que bom que a mercadoria estava disponível na Santa Terezinha. Durante o tempo que viveu, meu pai sempre indicou a nós todos a importância do conhecimento, a relevância do estudo, e de como, na falta de algo mais interessante para saber, havia construído um raro hábito, a leitura do dicionário, como se fosse um romance. Começava do A e ia, palavra por palavra, uma a uma. Nos contava maravilhado o significado raro, engraçado ou folclórico de cada significado. Aprendi com ele e com minha avó Martha, que amava ler também, e lia sempre e todos os dias, que o estudo era fundamental para seguir adiante na vida. Que abria horizontes. Que poderiam me tirar tudo, mas que o meu estudo jamais alguém me tiraria.
Meu pai passou isso a seus filhos, e certamente teria passado para seus netos, sendo um incentivador da capacidade ampliada de compreender e atuar no mundo. Não tenho dúvidas de que se há pautas que não podem ser eliminadas da vida familiar e da vida pública, é o valor incondicional a uma vida escolar consistente, continua, perene, de qualidade, para todos, em todos os tempos. Albino e Martha presentes. Santa Terezinha presente, para sempre, na história da educação jundiaiense.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp.

MARGARETH ARILHA


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