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Margareth Arilha: Serenidade

MARGARETH ARILHA | 09/01/2019 | 07:30

Ano Novo, vida nova. Presidente e governadores novos, uma crise econômica que se arrasta, um desejo de acreditar que tudo pode melhorar. Passada a primeira semana do ano, destaco a carta dirigida ao Ministro da Educação, assinada por Ricardo Vélez Rodriguez, representando o Grupo de Escolas Critique, um conjunto de instituições do Rio de Janeiro, Minas Gerais, e São Paulo, e que sentiu-se convocado a ocupar o espaço público, dirigindo-se com muita serenidade e muitos argumentos, ao Poder Federal.
Logo de saída o documento esclarece que o problema das escolas brasileiras “não são as ideologias de esquerda em sala de aula, mas sim a incapacidade do sistema de conseguir que os alunos aprendam”. Considera que são inúmeras as razoes que trouxeram a Educação Básica aos resultados precários que se repetem há muitos anos, mas não situa as causas aí, e sim sobretudo no pouco apreço que se tem no país pelos professores. Sugere que não nos desviemos do foco central, indica a importância de que a educação não seja caracterizada pela memorização de informações e fatos, mas que promova o desenvolvimento emocional, social, intelectual moral e físico do aluno. Clama por um projeto coerente, fundamentado, lógico e sensato para enfrentar as dificuldades da educação escolar, e garantir o futuro das novas gerações. Formula a seguinte questão: será que num país em que muitos alunos não chegam a aprender a ler, a principal meta seria vigiar professores e criar conselhos de ética para zelarem pela “reta educação moral dos alunos?”
Da mesma maneira, no campo da Saúde Pública, como poderia, o Ministério da Saúde, questionar o papel do Estado na defesa e promoção de políticas públicas destinadas a contemplar a saúde de todos os cidadãos, independentemente de idade, sexo, orientação sexual, no campo da saúde sexual e reprodutiva? Durante mais de três décadas, o país vem discutindo como ampliar a qualidade das áreas de educação e saúde no país, o que não quer dizer que tenha conseguido solucionar todos os impasses que ao logo do tempo se apresentaram. Por exemplo, na área de saúde das mulheres, para todas as etapas de suas vidas, um aspecto central foi incrementar a qualidade do pré-natal, reduzir os níveis da mortalidade materna, ampliar o acesso aos contraceptivos, garantindo informação e resolução de demandas, inclusive entre adolescentes, mas muitas questões restam sem resolução, por exemplo, o racismo institucional que dificulta a igualdade na qualidade do atendimento para todos os usuários dos sistemas públicos.
Caberá aos municípios, com serenidade e a partir de sua autonomia administrativa, preservar os avanços conquistados em várias áreas neste país. Jundiaí, por exemplo, tem boas experiências, no setor público e privado, que podem inclusive servir como estímulo ao debate público local, regional e nacional, e evitar assim equívocos desnecessários na gestão pública.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp

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