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Margareth Arilha: Surdas e Surdos

MARGARETH ARILHA | 14/11/2018 | 07:30

[TEXTO]Com as eleições, algo novo tem potencial para acontecer: crescente visibilidade da problemática de sujeitos que não ouvem, pessoas que são surdas. Aprendi a ter uma sensibilidade especial por conviver durante anos com Bebel, uma querida pessoa que faz parte de nossa grande família. Com ela, ao longo dos anos, aprendi que deveria entender como os esforços de superação são determinantes e essenciais, e devem ser objeto de apoio e estímulo.
Tudo é mais delicado e por vezes até cruel: como escutar os sons musicais de seu pai, grande maestro Mario Zaccaro, como escutar os sons da família tão musical? Como lidar com as diferentes etapas de socialização e aprendizagem de uma criança, de uma adolescente, num mundo que é tão sem razão? Como lidam os jovens com sua sexualidade e desejos de maternidade e paternidade? Enfim, são tantas as questões, que gostaria de ver mais e mais discutidas nessa sociedade!
Jundiaí tem um diferencial: possui uma organização muito ativa, referência na questão, e possui um clube que congrega os surdos.
Mas vou meter a minha colher nessa história. Desculpem. Queria muito compreender como é constituído o mundo dos surdos hoje no Brasil. Quantos são? Como se distribuem no país, como são tratados, que tipo de formação possuem, como são atendidos pelos serviços públicos de saúde, educação e cultura, como fazem para discutir política, que tipo de amparos têm tido de suas famílias, enfim, gostaria sim de conhecer muito mais sobre isso tudo.
Digo isso simplesmente porque considero que a sociedade brasileira tem uma divida com essas pessoas. Será que se relacionam em instâncias nacionais, regionais, internacionais? Tudo isso deve acontecer, mas porque essas informações não vêm claramente à luz do dia? Isso é mais do que saber, por alto, que em Jundiaí se trabalha com afinco para seus direitos serem atendidos. Salve a Ateal!
Mas e outra. Há diferenças entre ser um homem e uma mulher surda/o? Quem escreve essas histórias sob a perspectiva de gênero, raça/cor? Por que não extrairmos dessas historias de vida, ingredientes para tornar mais complexas nossas visões de mundo? Ora bolas, certamente, deve ser muito diferente lidar com as nuances entre ser surda e ser surdo, na infância, adolescência e juventude.
E na vida adulta? E na velhice? Como vivem e morrem os surdos e as surdas deste país? Bem e para contar um pouco de historia, você sabia que o Coral Lírico do Teatro Municipal de São Paulo apresentou, alguns anos atrás, uma belíssima apresentação em que os participantes do coral cantavam em voz e em Libras ao mesmo tempo? A historia não pode esquecer sua própria produção!

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp

MARGARETH ARILHA


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