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Margareth Arilha: Travessuras do Desejo

MARGARETH ARILHA | 26/06/2019 | 07:30

Resolvi olhar com outros olhos para o fascínio que um certo pequeno vídeo de YouTube causou entre homens adultos, na última semana. Vários dos leitores nesse minuto estarão se recordando de terem visto o curto material. As cenas eram simples, bastante simples, e por isso prendiam o olhar dos senhores de respeito: meninos moleques, sem camisa, pulavam com muita alegria, num rio qualquer desse Brasil. Pobreza estalando no sol, junto com liberdade e aventura. Um após o outro, talvez uma dezena ou mais deles, iam pulando pulando, e ouvi varias vezes dos homens que observavam o vídeo nesse dias, “que delícia!”.
Homens adultos, já de canas brancas, recordando dos tempos da vida tranquila, da vida onde cabia divertimento e companhia. Não é sem um gosto amargo e com um ponto de interrogação entre os olhos, que penso onde é que esse desejo de travessura e de alegria foi parar. Não quero ser a saudosista, aquela que vai dizer, “no nosso tempo”, mas realmente, a questão fica. Que diabos estamos fazendo com os jovens de nossa história? Qual é a resposta que jovens podem ter frente a vidas doídas, sem companhia, sem alegria. Mas, e seus pais? Poderíamos pensar que esses adultos, pais dos jovens de hoje estão buscando acertar, mas estão também imersos entre as inúmeras exigências da vida cotidiana.

Falo em nome deles, deles e delas, antes que a culpa caia em cima de qualquer um. Mulheres e homens adultos, pais de crianças e jovens, estão sendo convocados a desempenharem um conjunto de demandas, para as quais talvez nunca as famílias tenham sido tão pressionadas. Premidos por uma grave crise econômica no país, pela necessidade de construírem-se como sujeitos também, perdidos estão no meio de um grande nevoeiro. Escolher uma direção e lidar com a perda parece ser impossível. Simplesmente porque é preciso ser “tudo”, os filhos precisam ser tudo enquanto que os pais e as mães também precisam ser “tudo de bom”. Esquecemos como lidar com a falta. A falta que movia o desejo daqueles garotos de antigamente, de buscar a alegria do pulo no rio pela falta do resto, pelos limites da vida. Mulheres mães, e homens pais, respirem. Fiquem com o pouco, fiquem com a falta, não queiram ofertar o impossível, fiquem com o possível incompleto.

A psicanálise permite pensar e entender isso, tão fácil e tão difícil como saber que as perdas do caminho permitem a leveza do viver que dá sentido a voz desejante.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp


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