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Margareth Arilha: Um Estranho no Ninho

MARGARETH ARILHA | 29/05/2019 | 07:30

“Um Estranho no Ninho” é o título de um filme de 1975. Muito aplaudido naquele momento, notabilizou-se por trazer questões críticas para o debate público, associadas ao papel e função dos manicômios no país e no mundo. Tive o prazer de conhecer pessoalmente a Franco Basaglia, um médico italiano, que liderou internacionalmente processos de discussões teóricas, técnicas e políticas, recheadas de experiências concretas de eliminação de muros de manicômios. Como estudante do Instituto de Psicologia da USP, recém-chegada naquele efervescente ambiente de discussões inovadoras, de lutas libertárias, ouvi atentamente e depois li, percebendo que Basaglia nos ensinou que valia a pena ousar, e que aquilo que parecia imutável, poderia acontecer. Lição aprendida para o pensar sobre o sistema. Ensinou-nos sobre a desumanidade nas instituições fechadas e de como a loucura degradante, era sintoma social de um mundo que a produzia impunemente.

Seguiram-se décadas promissoras, no Brasil e no mundo todo, em que foi possível compreender que o estigma que cercava o diferente, o desigual, “aquilo que não é espelho”, como diz Caetano Veloso, deveria remeter-nos a pensar em nós mesmos. Com o tempo, eliminamos muros e entendemos que o padrão, o comum, não responde necessariamente pela normalidade, como bem mostra o filme. Quem é mais “louco” dentre todos os “loucos” internados naquela instituição? Ou mesmo entre os não-internados? Jack Nicholson no comando, estrela maior, acompanhado do “chefe”, um indígena, aparentemente surdo-mudo, ambos criticavam o sistema manicomial: um deles fazendo muito ruído, e o segundo em silêncio, foi mostrando que ouvia e que falava, e que pensava. Uma lobotomia é executada e MacMurphy, o personagem de Nicholson, é submetido ao procedimento – muito comum para “apaziguar” os ânimos de doentes mentais em décadas passadas – eliminando, matando sujeitos que buscavam expressar suas inconformidades; transformavam-nos em vivos-mortos, como o filme bem mostra. O chefe, o interno indígena, claramente absorvido e internado por sua forma diferente de ser, embora fosse apenas membro de uma outra cultura, excluída, consegue escapar daquele hospital psiquiátrico.

Nesta semana o Hospital 9 de Julho debate o filme, no projeto Cine9. Em maio a luta antimanicomial deixa marcas. No caso do Brasil, o título nos faz pensar: quem são agora os estranhos no ninho? Onde está a loucura?

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp


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