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Margareth Arilha: Voar é preciso!

MARGARETH ARILHA - opiniao@jj.com.br | 07/03/2018 | 05:51

“Voar é preciso” era a frase que encabeçava o lindo pôster que venceu o Concurso para as Mulheres, produzido no ano de 1985 pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, em parceria com o Conselho Estadual da Condição Feminina de São Paulo. O fundo era o mar ou o céu, azul. Em destaque, o corpo de uma mulher, estilizado, inspirava um salto magistral, como se fosse um mergulho para o alto, para o infinito. Os tempos eram promissores. Democratização acontecendo no país e, com ela, as mulheres passavam a demandar seus direitos . Março de 1985, sob a coordenação da socióloga Eva Blay, o primeiro Conselho, do qual tive a honra e o enorme prazer de participar, foi um marco para as mulheres, para as leis, para as políticas públicas locais, estaduais e nacionais.

DOUTORA ROSA MARGARETH ARILHA

ROSA MARGARETH ARILHA

O Conselho da Condição Feminina cresceu ao som das ideias das inesquecíveis Ruth Cardoso, Zuleika Alambert, Florisa Verucci, Cristina Bruschini, Fulvia Rosemberg, Maria Isabel Baltar Rocha e Lurdinha Rodrigues, que já nos deixaram, e tantas outras como Elza Berquó, Silvia Pimentel, Alda Marco Antonio, Sueli Carneiro, Cida Medrado, Marina Rea, Norma Kyriakos, Efigenia Maria Sampaio, Marise Egger, Maria Amelia Telles, Jacira Mello, Iara Prado e Zulaiê Cobra Ribeiro, dentre tantas.

Magistral time de mulheres que, do esplendor de suas vidas e carreiras profissionais e políticas, inspirou e realizou transformações que modelaram pequenas revoluções nas estruturas de poder do Estado, e da sociedade como um todo. Construiu-se uma perspectiva de direitos para todas as mulheres e, depois de três décadas, pode-se brindar. Não sem preocupações, nem sem medo de que os retornos conduzam a repetições que sabemos somos tão propensos a fazer na qualidade de civilizações tão destrutivas que somos.

Mas o que desejo dizer hoje, as vésperas do 8 de março, é que tudo dependerá da intensidade e do mergulho que cada mulher dará. Tudo dependerá do grau da solidariedade entre as gerações nas próximas décadas, da sensibilidade e da determinação das mulheres mais jovens, de sua capacidade de não esquecer de seu passado tão recente. E brindemos também as mudanças masculinas: a maior sensibilidade e desejo masculino de ver um filho nascer, de compartilhar cuidados domésticos e de aprender que violência deve ser algo que fique fora de suas perspectivas. Mas, sobretudo, a marca que precisa ficar é o desejo e o prazer de viver e transformar. Afinal, voar é preciso!

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp


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