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Maria Castilho: Acabrunhada

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE | 21/03/2019 | 07:30

Passei a semana passada acabrunhada. Conheço a pessoa desde criança. Carrega muitos dons artísticos. Há algum tempo, contudo, passou a cultuar o corpo através de fotos conquistadoras sem arte. Carne exposta pela carne que atrai aplausos de alguns. Confesso-lhes que fiquei triste. De certa forma, é o primeiro passo para o caminho da prostituição. Prostituir-se é um direito, contudo conheço bem aonde chega, depois de no máximo dez anos, quando o uso deixa de ser novidade.
Ao falar com a psicóloga Ana Cristina Codarin Rodrigues sobre minha angústia, comentou sobre o transtorno de personalidade histriônica (TPH). Nunca ouvira falar. É caracterizado por um padrão de emocionalidade excessiva e necessidade de chamar a atenção para si mesmo, incluindo a procura de aprovação e comportamento inapropriadamente sedutor. Que judiação, morre um artista e surge uma oferta no comércio do sexo.
Quase em seguida soube do indivíduo que foi detido após dois filhos com mães diferentes da mesma família. Pela lei, estuprador, devido à idade de uma das meninas. Pelo consenso de algumas pessoas próximas, oferenda de corpo com insistência, a que ele não resistiu. E, nos meus conhecimentos/desconhecimentos sobre o acontecido, reflito sobre as carências das mãezinhas, a desestrutura da família que não cuida, os homens rústicos que não compreendem idade e limites e reagem de acordo com quem motivar os seus instintos. Que triste!
E chega a tragédia de Suzano, envolta em sangue, morte, feridas, games, planejamento macabro, paranoia… O fórum extremista Dogolachan, no qual são discutidas, dentre outros assuntos, práticas de crimes, violência dos direitos humanos, racismo, misoginia. A colocação de um dos matadores: “Nascemos falhos, mas partimos como heróis”. Por que não aprenderam que todos somos limitados e com a possibilidade de nos melhorarmos? Heróis para quem, meu Deus, depois de uma barbárie dessas?
Nos três acontecimentos, desrespeito: consigo e com os outros. O século da ignomínia.
Assoprou-me o coração, com esperança, o texto do Padre Leandro Megeto, Pároco da Igreja Nova Jerusalém e coordenador diocesano de ação evangelizadora, a partir do Livro do Êxodo (3, 5): “Tira as sandálias dos pés, porque o lugar onde estás é chão sagrado”, em que ele conclui: “Como mudar todo este quadro? Olhar para o outro como um solo sagrado”.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE ARTICULISTA

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE
ARTICULISTA


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