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Maria Cristina Castilho: A bebê da sacola

Maria Cristina Castilho de Andrade | 02/05/2019 | 07:30

Doeu-me a notícia da recém-nascida abandonada no bairro do Retiro, aqui em Jundiaí, dentro de uma sacola, ainda com o cordão umbilical. Sem dúvida, Deus a levou no colo, naquele dia, para integrar-se aos anjinhos do Céu. Nascendo ou não aos olhos do universo, Deus sopra vida eterna nos pequeninos e nas pequeninas desde a fecundação. É a minha fé.
Pelo que li, sozinha, a jovem carregou e descartou a sacola sob as dores do parto recente, acontecido de forma que ignoro. Desconheço se a bebê, na hora do desamparo, se encontrava viva. Recordo-me da indústria do aborto: há no útero um indivíduo que não é parte do corpo da mãe e expulso dele, sem a possibilidade de vir à luz. Será misturado a resíduos hospitalares ou enterrado em um canto qualquer. Gente miúda destinada às lixeiras do mundo. Por estar oculta, não causa tanta indignação em uma sociedade de máscaras, que vive de aparências. A defesa do aborto provocado, para mim, é um tentáculo da crueldade. No caso da “bebê da sacola”, a mãe deixou que nascesse e, talvez, considerava que alguém, ao vê-la, lhe ofereceria uma família.
O fato de ser universitária não significa que, no momento, estivesse em estado de lucidez. No Primeiro Livro de Samuel (16, 7), encontro: “O que homem vê não é o que importa: o homem vê a face, mas o Senhor olha o coração”. Somente o Senhor sabe, portanto não me cabe o direito de julgá-la. E, por certo, se ela se deparasse com o Cristo, diante de uma multidão com pedras para atacá-la, ouviria dEle: “Aquele, que não tiver pecado, que atire a primeira pedra”.
O episódio, porém, me impressionou demais. Tenho rezado pela situação.
Reflito sobre o contexto. Quem, do entorno da moça, a “destruiria”, ao saber de uma gravidez fora de um relacionamento estável? Que medo imenso foi esse de se assumir mãe? Se ela realmente repelisse a criança de suas entranhas, teria procurado uma indicação de aborto clandestino. Que pavor a motivou a anular a realidade de seus nove meses de gravidez?
Intriga-me a ausência do pai da bebê. Suponho que não houve inseminação artificial, com um doador desconhecido de sêmen. Quem depositou uma semente de vida na jovem e, depois, a deixou no desamparo emocional? Não li ou ouvi comentário algum a respeito da responsabilidade do pai dessa criança.
O odor fúnebre que exala do sucedido vem, também, do pai da nenê.

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE ARTICULISTA

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE
ARTICULISTA


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