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Maria Cristina Castilho: Anônimos sociais e superação

MARIA CRISTINA CASTILHO | 18/10/2018 | 07:30

Encantam-me histórias de superação de anônimos sociais. Não encenam, não buscam aplausos, não se escondem com medo de julgamentos, apenas contam. Conheço-o desde os tempos em que visitava, via Pastoral Carcerária, a cadeia do Anhangabaú. Em uma das vezes, foi líder na rebelião. Revimo-nos há 11 anos, uma semana depois dele sair do sistema carcerário com o propósito firme de não regressar. Semana passada, em meio a conversas do cotidiano, comentou sobre o que o fortaleceu para se libertar das loucuras que praticava desde a adolescência, envolto em álcool, cocaína e crack.

Foram várias entrada e saídas de cadeias. Houve uma manhã, segundo ele, de sol brilhante como nunca vira. Encontrava-se na rua, envolto em ilícitos. A polícia surgiu e ele, com medo de ser baleado, se jogou no chão. O policial ordenou que se levantasse. Ao erguer a cabeça, se deparou com uma nuvem densa, que surgira de repente, encobrindo a luminosidade solar. Compreendeu que a escuridão de suas atitudes o impedia de caminhar na luz e multiplicava seus medos.

Viveu de maneira diferente esse novo tempo de presídio. Aprendeu na penitenciária duas profissões: costura e corte de cabelo masculino. Destacou-se nelas. Chegou a fazer jaquetas de couro, sucesso de venda no dia de visita. Ao recomeçar, a barbearia lhe deu a oportunidade de sobrevivência. Ao descer a rampa do estabelecimento penal, na saidinha, ninguém o aguardava. Era de um município distante e a família não possuía condições de comprar passagem para buscá-lo.

Parou. O sol brilhava como quando fora preso. Falou com o Céu: “Senhor, já que estiveste ao meu lado nos últimos meses, segue comigo, de mãos dadas, até o meu retorno”. Chegou à casa materna dez horas depois. Crianças brincavam. A mãe lhe disse: “Abrace sua filha”. Ali estava a menina de um ano, cabelos encaracolados e olhar com brilho. Pegou-a no colo e disse para si mesmo que não tinha o direito de passar a história que até então experimentara à pequenina, que acabava de conhecer.

Bonita essa vivência de luta pela claridade, após experimentar trevas intensas. Terminou o bate-papo com o versículo quarto do Salmo 23 que, segundo ele, o sustenta nesses 11 anos de passos corretos: “Se eu tiver de andar por vale escuro não temerei mal nenhum, pois comigo estás. O teu bastão e o teu cajado me dão segurança”.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADEARTICULISTA


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