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Maria Cristina Castilho: Candelárias das margens

MARIA CRISTINA CASTILHO | 23/08/2018 | 04:50

Li, no Caderno Cotidiano da Folha de S.Paulo, em 22 de julho passado, uma matéria da jornalista Júlia Ribeiro intitulada: “25 anos após a chacina da Candelária, crianças ficam desprotegidas”. Há duas décadas e meia, na região da Igreja da Candelária no centro do Rio de Janeiro, seis menores, de 11 a 17 anos, e dois jovens, um de 18 e outro de 19, moradores de rua, que viviam na região, foram mortos. E várias crianças e adolescentes ficaram feridas.  Uma das entrevistadas, Yvonne Bezerra de Mello, que dava aula a esses meninos, foi a primeira a ver os corpos.

Segundo ela, recentemente contou entre Flamengo e Botafogo mais ou menos 150 crianças de rua. Yvonne montou o Instituto Uerê e dá aulas no complexo de favelas da Maré, na tentativa de que as crianças não se percam. Embora tenham avançado as leis de proteção, afirma: “Tem toda uma rede proteção que não funciona. Não funcionava 25 anos atrás e não funciona agora”. E Adilson Dias, que viveu na Candelária um ano antes da chacina, aos 11 anos, sobre menos crianças nas ruas do Rio, hoje em dia, comenta não ser por um bom motivo: “Muitas são pegas pelo tráfico, porque quando é menor de idade não vai preso”.

Li e reli o texto de realidade tão cruel. Leis avançam, mas as ferramentas para cumpri-las deixam a desejar.  Penso nas crianças e adolescentes, das bordas urbanas, que se iniciam no ilícito através de pipas de linhas com cerol, chilenas… Quem os interrompe, convoca os pais, sai em busca daqueles que comercializam o produto? Penso nos meninos e nas meninas com faltas sem justificativa no Ensino Fundamental II e no Ensino Médio, que percorrem os becos matutinos ou vespertinos encantados ou buscando aconchego em braços da clandestinidade.

Quem os alcança, uma, duas e quantas vezes forem necessárias, bem como aos genitores para acertar um compasso que dê nas virtudes? Quem visita as famílias fragilizadas por inúmeras situações de miséria, cujos filhos percorrem sarjetas com tubetes e bitucas? Quem, de fato, fortalece a família para que ela assuma a responsabilidade sobre filhos sem rumo para a claridade? Quem examina as feridas de desvalidos, faz a sutura, coloca bálsamo e quebra o círculo que estrangula as histórias? Ah, Candelárias das margens, daqui, dali e de acolá, que geram meninos e meninas, filhos do desamparo, para a morte!

MARIA CRISTINA CASTILHO é professora e cronista

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADEARTICULISTA


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