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Maria Cristina Castilho de Andrade: Exercício do olhar

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE | 02/04/2020 | 05:15

Vejo-me entre a homilia do Santo Padre, no último dia 27 de março, e o livro do Cardeal Robert Sarah e Nicolas Diat: “A morte se aproxima e o dia já declinou”.

O Papa disse: “… densas trevas cobriram as nossas praças, rua e cidades; apoderam-se de nossas vidas enchendo tudo com um silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo a sua passagem.”

Escreve o Cardeal Sarah no referido livro: “…a oração deve se tornar a nossa respiração mais íntima. Ela nos põe diante de Deus”. O ponto em comum entre Sarah e Francisco, no que conclui o Papa: “Abraçar o Senhor, para abraçar a esperança em tempos tão dolorosos”.

Iniciei a Quaresma, na Catedral Nossa Senhora do Desterro, lotada para as cinzas, coma proposta, do Profeta Joel (2, 13), de voltar-me ao Senhor e rasgar o coração, e não as vestes. Hoje, prossigo, na Quaresma, com as Igrejas de portas fechadas para defender a vida contra o covid-19.

Passei pela emoção de contemplar e ouvir o Papa Francisco, gigante de alma e com fragilidades físicas, pedindo pela humanidade. E, no domingo, do Evangelho da Ressurreição de Lázaro (João 11, 1-45), em que o Senhor exclamou em alta voz a seu amigo morto que viesse para fora e ordenou, também aos próximos, que o ajudassem a desligar as faixas que o envolviam, escutei do Padre Márcio Felipe, pároco da Catedral, na Missa pelas redes sociais: “agora sejamos audaciosos. Assim como Jesus em alta voz gritou a Lázaro, permitamo-nos ouvir o seu grito que nos chama para fora de nossas sepulturas. Tenhamos a coragem de nos ajudar mutuamente, no mesmo ímpeto que envolveu o coração daqueles que ajudaram Lázaro, desatando-o e deixando-o arriscar-se em Deus”.

Penso que devo exercitar o olhar para Aquele que, desfigurado, carregou a cruz até o calvário, caiu três vezes, encontrou-se com sua mãe e Verônica, consolou as mulheres de Jerusalém, foi despojado de suas vestes e pregado na cruz, onde morreu. Devo exercitar o olhar em direção aos doentes, amedrontados, inseguros, famintos, dos que se encontram estendidos ao longo dos caminhos. Sair da sepultura do meu eu, pelo Céu, para que, ao observar o Cristo sofredor, as horas não sejam estéreis.

Que nos sustos e temores possamos, com o coração abrasado, experimentar a presença daquele a quem os discípulos de Emaús disseram: “Fica conosco, pois é tarde e a noite vem chegando”.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista


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