Opinião

Imprevistos e reflexos


Desde que fomos atacados pela covid-19 os imprevistos se agigantaram. Isso sem dizer dos medos, pavores, dores e lutos de tantos. Conviver com o imprevisível desmonta os nossos propósitos e, de acordo com sua intensidade, tira-nos o chão. Diversas pessoas têm repetido o poema "José", de Carlos Drummond de Andrade, publicado originalmente em 1942: "E agora, José? /(...) a luz apagou,/ (...) a noite esfriou, / e agora, José?/e agora, você?/(...) e tudo fugiu/ e tudo mofou, /e agora, José? /(...) Se você gritasse, /(...) você marcha, José! /José, para onde?" O texto se focou nos problemas sociopolíticos do Brasil em plena Segunda Guerra Mundial, em que o país entrara num regime ditatorial do Estado Novo de Getúlio Vargas, porém continua nos falando. Os mais empobrecidos são as maiores vítimas, não apenas pela fragilidade física e situação econômica, mas também pelos limites no discernimento. A Associação Socioeducacional Casa da Fonte, que tem como mantenedora a Companhia Saneamento de Jundiaí, através da assistente social Pérola Maria Dolce, se colocou à disposição da comunidade do Jardim Novo Horizonte, com horários agendados e cuidados de higienização e proteção no atendimento presencial para o cadastro do benefício emergencial, pelo telefone fixo ou celular. A constatação é a seguinte: são poucos os mais idosos que possuem celular ou telefone fixo. Necessitam de alguém. Nem sempre os filhos se dispõem a ajudá-los. Muitos dos celulares são antigos e sem acesso à internet. Nos aparelhos mais novos, ou jamais tiveram internet ou não conseguem mais pagar o acesso. Inúmeros não sabem "navegar" e muito menos acompanhar o próximo passo para algo. A falta de escolaridade dificulta a digitação e o entendimento da pergunta feita pelo aplicativo. A pedagoga Rosana Sueli Biagiotto também colabora no cadastro. Um dia desses, um dos atendidos, para prosseguir, necessitou procurar a vendedora de Yakult, em cujo celular fizera o cadastro, a fim de obter o código de acesso. Ou seja, é uma fantasia, em um país como o Brasil, com pessoas com variadas dificuldades, considerar que cadastro, via internet, de formas diferentes, incluindo o Whatsapp, possa facilitar a vida dos indivíduos. Que falta faz o investimento sério em educação com oportunidades iguais. E daí? Eu me importo. Nós nos importamos. MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista.

Notícias relevantes: