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Imprevistos e reflexos

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE | 14/05/2020 | 07:00

Desde que fomos atacados pela covid-19 os imprevistos se agigantaram. Isso sem dizer dos medos, pavores, dores e lutos de tantos. Conviver com o imprevisível desmonta os nossos propósitos e, de acordo com sua intensidade, tira-nos o chão.

Diversas pessoas têm repetido o poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade, publicado originalmente em 1942: “E agora, José? /(…) a luz apagou,/ (…) a noite esfriou, / e agora, José?/e agora, você?/(…) e tudo fugiu/ e tudo mofou, /e agora, José? /(…) Se você gritasse, /(…) você marcha, José! /José, para onde?”

O texto se focou nos problemas sociopolíticos do Brasil em plena Segunda Guerra Mundial, em que o país entrara num regime ditatorial do Estado Novo de Getúlio Vargas, porém continua nos falando.

Os mais empobrecidos são as maiores vítimas, não apenas pela fragilidade física e situação econômica, mas também pelos limites no discernimento. A Associação Socioeducacional Casa da Fonte, que tem como mantenedora a Companhia Saneamento de Jundiaí, através da assistente social Pérola Maria Dolce, se colocou à disposição da comunidade do Jardim Novo Horizonte, com horários agendados e cuidados de higienização e proteção no atendimento presencial para o cadastro do benefício emergencial, pelo telefone fixo ou celular.

A constatação é a seguinte: são poucos os mais idosos que possuem celular ou telefone fixo. Necessitam de alguém. Nem sempre os filhos se dispõem a ajudá-los. Muitos dos celulares são antigos e sem acesso à internet. Nos aparelhos mais novos, ou jamais tiveram internet ou não conseguem mais pagar o acesso. Inúmeros não sabem “navegar” e muito menos acompanhar o próximo passo para algo. A falta de escolaridade dificulta a digitação e o entendimento da pergunta feita pelo aplicativo.

A pedagoga Rosana Sueli Biagiotto também colabora no cadastro. Um dia desses, um dos atendidos, para prosseguir, necessitou procurar a vendedora de Yakult, em cujo celular fizera o cadastro, a fim de obter o código de acesso. Ou seja, é uma fantasia, em um país como o Brasil, com pessoas com variadas dificuldades, considerar que cadastro, via internet, de formas diferentes, incluindo o Whatsapp, possa facilitar a vida dos indivíduos.

Que falta faz o investimento sério em educação com oportunidades iguais. E daí? Eu me importo. Nós nos importamos.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista.


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