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Maria Cristina Castilho: Estrutura do bem

MARIA CRISTINA CASTILHO | 26/07/2018 | 05:30

Falta pouco à senhorinha para completar 70 anos. De tempos em tempos revela suas memórias daquele “final de mundo”, como ela diz, onde morou até os 17. Semana passada, comentou sobre o pai que, com paciência, tirava-lhe os bichos-de-porco. Parasita que entra nas partes mais sensíveis dos pés e se reproduz rápido, formando um saco cheio de filhotes. Detectava-se a pequena lesão e, à noite, ao voltarem da roça, ele usava uma agulha para extrair o parasita. Doía, segundo ela. E isso aconteceu por diversas vezes, pois o calçado destinava-se aos dias de festa.

Em sua infância, não mais que um brinquedo: a boneca feita de palha de milho. Menina ainda na morte do pai. A mãe, a segunda esposa dele. Viúvo, idoso, procurou uma mulher que vivia na solteirice. O preconceito era grande contra mulher que ninguém procurava para casamento. O pai tirou a mãe da amargura. Recorda-se do pai como um homem bravo, de força na enxada e nas surras. Não agradava as crianças. Creio, porém, que tirar bicho-de-porco seria sua expressão de ternura.

Com 17, a senhorinha conheceu o “galã”, nascido em seu povoado, que voltara da metrópole em busca de uma vida melhor. Paixão louca. Primeiro amor. Fugiu com ele para o Agreste Alagoano. Uma semana após, avisou a mãe que partiriam para São Paulo. Em um município próximo daqui, estabeleceram-se sob uma construção abandonada de caixa d’água. Ali mesmo, ele construiu dois cômodos sem alicerce. Permaneceu nesse espaço por um ano. Ia longe, num convento, buscar água com uma lata enorme. Veio o vendaval e parte do telhado caiu. Embora protegesse seu bebê, sozinha, com o corpo, uma viga bateu no pequenino e, três meses depois, devido ao traumatismo craniano, a criança faleceu.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE ARTICULISTA

Foram para o perímetro urbano, na casa do cunhado. O companheiro, uma manhã, disse-lhe que iria procurar emprego e não retornou. O cunhado a levou para um conhecido dele em uma fazenda na estrada de Itu. Trabalharam juntos na terra. Ficou menos de uma década com o cidadão. Era “pé de cana”. Preferiu levar desacompanhada a sua vida e assim criar os filhos. Mulher simples, analfabeta, educada no campo, viajou na ilusão, contudo não se perdeu nos convites sinistros da cidade grande. Sem dúvida, alicerçou-se na fé que professa, na integridade da mãe e nos afagos do pai severo, que a salvava dos bichos-de-porco.

MARIA CRISTINA CASTILHO é professora e cronista


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