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Maria Cristina Castilho: Misérias e desencantos

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE | 27/06/2019 | 07:30

A moça veio para nos relatar suas dificuldades. Não a reconheci de imediato. Encobrira a moça com viço e sonhos de poucos anos atrás. Com ela estava o filho, de aparência cansada e exasperada, aos berros os momentos todos. Não consegui decifrar se quem carregava mais desenganos era ele em seus três anos ou ela nos trinta e poucos.

Recordei-me de Jesus Cristo, em acontecimento narrado por São Mateus (9, 36): “Vendo a multidão, ficou tomado de compaixão, porque estava enfraquecida e abatida como ovelhas sem pastor”. Bem a situação dela: enfraquecida e abatida. Permanece com o pai do filho há dez anos. Um amor desesperado que se fez na rua e nas visitas à cadeia. As drogas o dominam há décadas. A ilusão de mudança tomou conta dela em todas as etapas. Fragilizado por sua história, o vício se apossou dele. Fragilizada, nos caminhos que percorreu, o apego a ele se apoderou dela.

Por ele, em um ciclo desse relacionamento, retornou aos remédios que lhe protegiam da convulsão. Por ela, em uma etapa dos encontros, prometeu deixar de ser desencontro. Na soma do tempo de cada um, restaram os dois e agora o filho de olhos assustados, irritados e melancólicos.

Contou-nos que o imagina possuído por algo mal. No barraco, rola no chão, diz coisas desconexas, grita também e a quer desfeita de vaidades, para não correr o risco de que alguém a leve. Ela reclama, mas aceita. Encolhe o pescoço para ser menos vista, esconde os cabelos no boné surrado, contudo carrega medos. Teme que o barranco volte a cair sobre o barraco em que residem em cidade próxima. Teme pelos desatinos dele, pela solidão enquanto ele “trabalha” em troca de margarina, pão e duas marmitex. É a dívida. A maldita dívida das pedras e dos pinos que ele continua a consumir. “Trabalha de atrativo” para quem deve no ilícito, conduzindo-os a lugares ermos. Pela primeira vez, nos mais ou menos quinze anos que a conheço, noto que esgotou suas possibilidades de suavidade e doçura.

O menino me parece o resultado da desarmonia do pai e do tremor da mãe. Desconhece viagens em cavalinho de pau e voos na observação de avezinhas.

Tão pouco a lhes oferecer! Se não fosse minha fé em Deus e a possibilidade de diálogo, com Ele, teria saído fatigada como os três. Convidamos para que volte ao convívio conosco. Quem sabe? Precisam do olhar de salvação do Senhor.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista

 


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