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Maria Cristina Castilho: Riscos da velhice

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE | 16/05/2019 | 07:30

Há poucos dias, li a frase: “Não penso na velhice, tenho medo que a velhice pense em mim”, do escritor moçambicano Mia Couto, cujos textos me agradam demais. Couto costuma afirmar que as idades devem ser encaradas como travessias.
Nos meus 65 anos, que completei há pouco, concordo com ele que é perigoso permitir que a velhice pense através de mim. No caso, pelos conceitos culturais, me permitiria entregar à inatividade, alinhavar dissabores e considerar que os sonhos são limitados a um determinado período de vida. Nosso pai repetia: “Ah, se a juventude soubesse e a velhice pudesse…” Mas há algumas coisas que são próprias da sabedoria que se pode adquirir com o passar das décadas, dentre elas a compreensão de que cada indivíduo possui o direito em ser ele mesmo, com suas descobertas e escolhas. Inúmeros eventos perdem a importância à proporção que nos desapegamos dos aplausos de uma plateia que nada acrescentou ou acrescenta aos nossos dias. Embora os ossos e os músculos não respondam aos estímulos de antes, as asas me parecem mais leves e o exercício da tolerância também. Cultivar a paciência proporciona canteiros de girassóis na alma.
É uma questão de escolha os caminhos da travessia. Há dias que desperto com os olhos para me encantar e, em outros, para refletir sem magia. Para mim, é um acordo comigo mesma, com o meu entorno e, em especial, com Deus. Ah, quanto o Céu dá sentido às minhas encruzilhadas e às minhas idas e voltas!
Em entrevista na Mínima FM de Porto Alegre, Mia Couto diz que se sente velho às vezes. Palavras dele: “Em geral, é uma coisa quase irresponsável. Eu olho (…) como se houvesse uma vida inteira à frente. Tenho uma grande dificuldade de chegar em casa em me olhar no espelho ou sentir dor nas costas… Eu acho que prefiro não pensar nisso. Eu quero atravessar isso com uma grande distração. Eu tenho medo é que a velhice pense em mim”. Os versos finais de seu poema “Espelho”: “A idade é isto: o peso da luz / com que nos vemos”.
Verdadeiras as colocações e somente se revelam no embranquecer.
Ao observar a velhice, incomoda-me é o desrespeito com as bengalas por aqueles que buscam, com pressa, os seus intentos, sem considerar os direitos de pegadas de rugas e o empurrar os idosos para um canto que não é deles, desfeito de suas paisagens, cheiros, lembranças…

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE ARTICULISTA

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE
ARTICULISTA


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