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Memória fraca

JOSÉ RENATO NALINI | 01/12/2019 | 07:30

Somos desmemoriados. Atentos ao que acontece hoje, curiosos em relação ao amanhã, negligenciamos o ontem. Por isso deixamos morrer os nossos mortos. Que só morrem quando se apagam de nossa memória.

Estes dias, remexendo meus guardados, achei um folheto contendo duas palestras: ‘A obra poética do Padre Armando Guerrazzi’, feita pelo Prof. Nelson Foot e ‘Armando Guerrazzi: o professor e o filólogo’, pelo Prof. Lázaro Miranda Duarte.

O opúsculo vem com dedicatória do Prof. Nelson Foot e documenta a homenagem prestada ao sacerdote jundiaiense nascido em 2/12/1891 e falecido em 22/1/1947. A homenagem póstuma foi prestada em 13/6/1947, no Gabinete de Leitura Rui Barbosa, após missa celebrada pelo Monsenhor Dr. Arthur Ricci, visita ao túmulo do homenageado e sessão solene com a conferência dos dois conterrâneos.

Nelson Foot falou com emoção do Padre Guerrazzi: “A infância passou-a ele casando a alacridade dos dias descuidados em contato com uma natureza cheia de prodigalidades. Moço, fez-se professor, que a vocação era repartir com a juventude o saber acumulado pelo estudo e pela pertinácia. E um dia veio em que ampliou o seu apostolado: do lápis e da pena e do giz à cruz, ao altar, ao hostiário; da sala de aulas à nave; do toque de campainha ao toque dos sinos: bimbalhar, matinas, ave-maria”.

Lázaro Miranda Duarte, o Professor ‘Lazinho’, distinguiu Glotologia de Filologia, aquela uma ciência geral, esta uma ciência particular. O “estudo de nossa língua em toda a sua amplitude no tempo e no espaço e, acessoriamente, o da literatura”.

Para ele, “o Padre Armando Guerrazzi era o artista da palavra. Sabia aplica-la com arte na elaboração das ideias e pensamentos”. Termina com um testemunho de admiração e modéstia: “Do Padre Armando Guerrazzi, quando vivo, eu tentava em passo miúdo e picado, seguir-lhe as passadas firmes e largas. Morto, eu aqui de baixo, ainda o contemplo, radiante de felicidade, no reino dos céus, contente de possuir a recompensa digna dos bons e dos justos”.

Tempos bons, em que se rendia homenagem aos mortos, ao contrário destes, em que a tática se resume a homenagear cargos, funções, autoridade e qualquer expressão de poder.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista – 2019-2020.


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