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‘Minha pátria é a língua portuguesa’

GLAUCO GUMERATO RAMOS | 15/10/2019 | 07:30

O sedizente ‘patriótico’ Presidente da República amesquinhou uma dimensão do ‘patriotismo’ que afirma determinar a sua conduta. Refiro-me ao seu vitupério contra Chico Buarque, em razão do Prêmio Camões.

Em linguagem jurídica, esse novo destempero presidencial poderia ser chamado de ‘crime impossível’. Ou seja: o agressor até que tenta, mas ao fim se mostra incompetente para a prática do crime imaginado, que não se concretiza, já que pelas circunstâncias fáticas seria ‘impossível’ a sua consumação.

Dito de forma mais específica, é ‘impossível’ detratar Francisco Buarque de Holanda em sua relação com a língua portuguesa, por mais que a ‘cegueira’ ideológica nos atravanque a visão. E por falar em ‘cegueira’, o autor português de ‘Ensaio sobre a cegueira’ também já levou o Prêmio Camões, além do Nobel de Literatura, claro.

Como sabemos, Saramago não é brasileiro, pouco importa. Importa é que nós nos entendemos sem precisar raciocinar noutra dimensão da linguagem comunicacional entre os seres humanos.

‘Minha pátria é a língua portuguesa’ é uma afirmação feita por ‘Bernardo Soares’, o semi-heterônimo de Fernando Pessoa, escrita no ‘Livro do Desassossego’.

Os entendidos em literatura saberão que o contexto dessa passagem transcende ao patriotismo territorial. A genialidade de Pessoa foi revelar, por intermédio de ‘Bernardo’, que um dos fios de ouro que nos perpassa o espírito, cerzindo a nossa unidade patriótica, é exatamente a língua materna.

Ao fazer fumaça, dizendo que não assinaria ou assinaria sabe-se lá quando o Prêmio Camões outorgado a Chico Buarque, o presidente se esqueceu que para além de Chico ser brasileiro, o prêmio foi recebido por sua contribuição a um dos principais elementos que nos une em nosso sentimento patriótico: a língua portuguesa.

Sem que se desse conta, o que não é de se estranhar, diga-se de passagem, Bolsonaro deixou que sua estratégia populista lhe traísse, já que ao querer atacar a Chico Buarque, acabou por mostrar pouco apreço pela língua que patrioticamente a todos irmana.

Atente-se ao ponto! É ‘impossível’ desqualificar a benfazeja relação de Chico com a língua portuguesa. Mas é ‘possível’, com essa tentativa de descredenciamento, malferir a dignidade da língua em torno da qual se brinda o patriotismo brasileiro. Outra retumbante excentricidade do patriótico presidente da nação.
Há poucos dias estive num karaokê em Campinas. Da minha faixa etária era a minoria. A moçada formada por estudantes entre 20, 25 anos, tomava conta do microfone com músicas próprias de sua idade. Também não deixaram de cantar Raul…

Chamou-me a atenção quando um sujeito da turma dos ‘cinquentões’” foi chamado ao palco para cantar ‘Geni’, a estupenda criação de Chico Buarque inspirada no conto ‘Bola de Sebo’, de Guy de Maupassant. Não pude crer quando vi a estudantada em coro acompanhando o sujeito que cantava.

Duas coisas ali os uniam: a emoção e a língua portuguesa. Eram patriotas a saudar o idioma que lhes pertence.

GLAUCO GUMERATO RAMOS é advogado, professor da Fadipa, presidente para o Brasil do IPDP, Diretor de Relações Internacionais da ABDPro.


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