Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Monotonia estética

JOSÉ RENATO NALINI | 12/09/2019 | 07:30

Tenho saudades das colônias de algumas belas fazendas paulistas. As casas eram dignas. Não eram encostadas umas às outras. Havia espaço para jardim, para horta e pomar. Até pequena criação era possível, num ambiente que não impunha a absoluta ausência de privacidade.

Nada obstante se compreenda a inspiração governamental, o Programa Minha Casa Minha Vida instaurou a monotonia estética. Amplos conjuntos de casinhas iguais, sem jardim, sem verde, sem a distância que a decência reclama para um convívio de vizinhos desprovido de potencial de animosidade.

Uma das queixas do beneficiário do MCMV é a pequenez do espaço. Residências com 35 metros quadrados e famílias com mais de cinco pessoas. Ausente qualquer preocupação com o conforto térmico dos moradores. E isso teria sido facilmente evitado se previamente se avaliasse a orientação solar e se adotasse ventilação cruzada.

Está-se num planeta que, mercê da inclemência de seu único morador que se autoconsidera racional, está se tornando cada vez mais quente. Assim que houver possibilidade, o morador comprará um aparelho de ar condicionado. E isso não só gerará despesa maior para a família, como contribuirá para agravar a questão do aquecimento global.

A monotonia estética priva o morador da satisfação da originalidade. Não consegue identificar sua casa. Tem de recorrer a uma regra mnemônica numérica. “Moro na quarta casa, lado direito, da rua 4. Um país que teve Oscar Niemeyer, Ariosto Mila, Lina Bo Bardi, Maitrejean, Rino Levy, que ainda tem Paulo Mendes da Rocha, Araken Martinho e Isay Weinfeld, não precisa permanecer na pobreza e na mediocridade dos toscos desenhos que se reproduzem sem originalidade em todos os empreendimentos do programa.

Por que não recorrer aos arquitetos para a elaboração de projetos originais? O feio é sempre o mais barato? Será que o belo é, inevitavelmente, mais dispendioso e menos econômico?

Há muito ainda a ser feito para que o direito à moradia, incluído na Constituição como direito social, seja concretizado e fruído por quem dele precisa. Mas não é de se olvidar que beleza faz parte das aspirações humanas. Morar em cubículo onde se houve qualquer ruído da casa ao lado e num imóvel que em nada se destaque de todos os demais, não representa para o residente o melhor dos mundos.

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS-2019-2020.


Leia mais sobre |
Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/monotonia-estetica/
Desenvolvido por CIJUN