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Nada a comemorar

GUARACI ALVARENGA | 01/05/2020 | 07:30

Na comemoração do dia 1º de maio de 1940, dia dedicado ao trabalhador, o presidente Getulio Vargas institui o salário mínimo no Brasil. A grande conquista para o humilde operário brasileiro representava, no decreto verde e amarelo, um salário justo e digno, que viesse suprir as necessidades básicas de sua família. De lá para cá, o dia do trabalho sempre foi festejado.

Anos atrás, governo e sindicatos se uniram. Shows públicos a toda população e tudo em nome do trabalhador. Exaltava-se a riqueza do país e sua rica produção. Entretanto, nos tempos atuais comemora-se o importante dia como feriado nacional, mas não a sua justa conquista. O valor do salário mínimo, nada tem a comemorar. Os gastos domésticos, os remédios e outras necessidades tão comuns a qualquer ser humano não fazem parte da planilha básica.

A desigualdade social escancarada dos dependentes do INSS. O trabalhador aposentado pela Previdência Social e o benefício irrisório. O que veio para dar garantia de uma vida digna, fica sempre na esperança. Rota, mas ainda assim uma esperança. Recordo-me de um velho conto anônimo.

Quatro velas estavam queimando calmamente. O ambiente estava tão silencioso que se podia ouvir o diálogo que travavam. A primeira vela disse: eu sou a paz: apesar da minha luz, não conseguem me manter acesa. E se apagou. A segunda vela refletiu: eu me chamo fé e as pessoas desistiram saber de mim. Então se apagou. A terceira vela revelou: eu sou o amor. Não tenho mais forças para queimar. As pessoas só conseguem se enxergar e me deixam de lado. E também apagou.

De súbito, uma criança adentrou-se no recinto quase escuro. Temeu ao ver as velas apagadas e começou a chorar. Foi quando a quarta vela falou: não tenha medo. Enquanto eu queimar, podemos acender as outras velas. Eu sou a vela da esperança. A criança, com os olhos brilhantes e trêmula, pegou a pequena vela. Uma por uma, acendeu a todas as outras e a luz se fez por inteira.

A paz, a fé e o amor clarearam as sombras das tristes carências da vida, agruras onde ecoam os gritos dos que não têm teto para morar, escolas para estudarem seus filhos, proteção contra a violência, assistência médica satisfatória ou até mesmo o alimento indispensável à sobrevivência.

Neste 1º de maio, por conta desta terrível pandemia e para se preservar vidas, ficamos em casa. Sem comemorações. Contudo, sejamos fortes e confiantes. Ao merecedor lavrador, dedicado e perseverante, ao pobre aposentado, idoso injustiçado, que sente o antigo sonho de sucesso transformar-se em pesadelo. Enfim, a todos brasileiros que vivem do árduo trabalho. Que a vela da esperança continue viva e acesa e que nunca se apague dentro de seus corações.

GUARACI ALVARENGA é advogado.


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