Opinião

Não esperou o governo


Outra grande perda neste convulsionado 2019 foi a de Lázaro de Mello Brandão (1926-2019), falecido em 16 de outubro. Nascido em Itápolis, no interior paulista, foi escriturário na Casa Bancária Almeida & Cia, a partir de 1942. Instituição que se tornou no poderoso Bradesco, da qual Lázaro foi Presidente até 2017. Serviu ao Bradesco durante 76 anos, sucedendo ao fundador Amador Aguiar. Foi sucedido por Luiz Carlos Trabuco Cappi. Conheci bem o Sr. Lázaro. Era amigo de Paulo Bomfim, com quem almoçava de vez em quando. Homem muito simples, atendia a todos com simpatia e generosidade. No mesmo dia de sua morte, a mídia noticia que o rendimento médio do trabalho do 1% mais rico é 34 vezes maior do que o da metade mais pobre. Alcançamos triste campeonato no ranking do índice GINI, que mede a concentração econômica. Desde 1988, a Constituição Cidadã fala em eliminação da miséria e redução da desigualdade. Nada obstante, o rendimento médio do um por cento mais rico é de R$ 27.744 mensais, enquanto que os cinquenta por cento mais pobres ganham R$ 820 no mesmo período. O que tem isso a ver com Lázaro de Mello Brandão? Ele foi um dos responsáveis por consolidar a ideia de que o Bradesco é uma instituição financeira voltada para os de baixa renda, atenta ao correntista que não tem vez nos conglomerados internacionais. Além do crédito aberto aos pobres, o Bradesco tem tradição de se voltar à educação formal de milhares de crianças e jovens. A ‘Cidade de Deus’, em Osasco, é um exemplo de inclusão e de abertura de oportunidades a quem quer estudar e progredir licitamente. Lázaro de Mello Brandão não esperou que o governo o incentivasse a se interessar pelos mais humildes. Pode inserir-se numa tradição que já mostrou o exemplo de Roberto Simonsen, outro ‘bom patrão’, numa linha inversa à do capital predatório, que não enxerga senão cifras e desconsidera qualquer aspecto da tão decantada ‘responsabilidade social’. A pequena casa bancária de Marília produziu perfis como Amador Aguiar, Laudo Natel, Lázaro de Mello Brandão e Luiz Carlos Trabuco Cappi. Sinal de que ainda há esperança no Brasil, para quem se desvincular da subserviência à política partidária que profissionalizou quase todos os seus integrantes e que é algo a ser repensado se esta Nação quiser atingir o estágio pelo qual aspira. JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras - 2019-2020 [caption id="attachment_45549" align="alignnone" width="800"]  [/caption]

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