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Não foi por falta de aviso

JOSÉ RENATO NALINI | 31/05/2020 | 05:00

Em “O Leviatã”, Thomas Hobbes afirmou que a vida humana seria uma guerra permanente, de todos contra todos. É dele a expressão celebérrima: “homo hominis lúpus” ou “o homem é o lobo do homem”. Ao contrário de Rousseau, a quem se atribui visão idílica da humanidade, já que o ser racional seria o “bom selvagem”, a concepção hobbesiana parece mais próxima à realidade.

O que Hobbes não chegou a detectar foi que o ser humano seria um feroz inimigo de toda espécie de vida. O planeta que o diga. A inclemência é contínua e pertinaz. Destrói-se a natureza, polui-se o que é essencial para garantir a subsistência, aparentemente sem qualquer remorso.

Uma das homilias do Papa Francisco, que já nos legou uma encíclica em favor do ambiente, salienta que o coronavírus é consequência da irracionalidade dos homens. E ele está coberto de razão. Parece que se optou pelo suicídio coletivo, tamanha a insanidade com que se ataca o verde, a água, a atmosfera.

O mundo está enfermo. Dominique Belpomme, especialista em saúde ecológica, alertou: “Há cinco cenários possíveis para o desaparecimento da humanidade: o suicídio violento do planeta (por exemplo, uma guerra atômica); o surgimento de doenças graves, como uma pandemia infecciosa ou uma esterilidade que determine um declínio demográfico irreversível; o esgotamento dos recursos naturais; a destruição da biodiversidade; e, por fim, modificações extremas no nosso ambiente, como o desaparecimento do ozônio estratosférico e o agravamento do efeito estufa”.

Quem se alarmou ao encontrar mais de um cenário atualmente vivenciado apenas evidenciou sensibilidade aguçada. Algo que falta aos detentores de autoridade para reverter o nefasto rumo de nossa aventura pelo planeta.

A peste veio mostrar as escolhas equivocadas feitas pela incomensurável pretensão dos mortais. Kenneth Building, respeitado estudioso da teoria geral dos sistemas já advertira: “Os que acreditam possível o crescimento infinito em um mundo finito, ou são loucos ou são economistas”. O inesperado confinamento veio a demonstrar que é possível sobreviver, ainda que desprovido da volúpia da vida cotidiana, do ritmo exaustivo, da rede de ligações fúteis e desnecessárias.

Será que alguém se apercebeu de que há uma relação direta entre poluição e pandemia? Ou, mais uma vez, isso se destinou a ouvidos moucos?

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e presidente da Academia paulista de Letras – 2019-2020.


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